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Bruno Novaes aprisiona dentro de dez garrafas, desenhos feitos sobre passagens de trem, fotocópias de anotações, fragmentos de um caderno de artista e por fim um cadeado. Um trabalho de colecionador que, ao guardar estes “restos” produz uma espécie de contra-monumento. Colocado aqui no sentido de que esta obra se opõe à monumentalidade, a maior garrafa mede 31 centímetros. Um contra-monumento também por não se impor fisicamente ao solo e tampouco datar-se como uma coisa terminada. As garrafas são soltas, permitem ao artista a liberdade de criar novos arranjos para cada lugar em que ela for montada.

 

A instalação funciona como um princípio de montagem, onde ao aprisionar os desenhos em garrafas transparentes se permite que aquelas memórias (passado) sejam vistas e ressignificadas (presente) por quem as contempla. Passagens, trabalho acabado ou inacabado, garrafa aberta ou fechada, sugere uma nova forma de ler e interpretar um passado, um amontoado de memórias, tomando por material seus cacos. Bruno faz um trabalho de colecionador das suas próprias lembranças, em que trechos da história foram interrompidos e condensados na superfície de papéis. Aqui, genuinamente, a história é escrita a partir das imagens que, via de regra, pertenceram a um dado momento da vida do artista e agora se coloca como narrativa perdida. Não há começo nem fim. Passagens sugere este caminhar desregrado por entre garrafas de memória.

 

São desenhos como relatos de um flâneur que percorreu a Paris contemporânea em contraste com a que Benjamin descreve. E depois guardou estes olhares em garrafas, tapando-as com rolhas, talvez na tentativa de conservá-los. Passagens também pretende que as imagens sejam a sua própria dimensão temporal: estão situadas dentro de um corpus espaço-tempo, e já não se manifestam em seu estado bruto, mas como cacos de uma história. Os desenhos se encontram rasgados, algumas passagens de trem estão sobrepostas, e a obra se apresenta como este emaranhado de papéis que o artista produziu em diferentes épocas. Um colecionador. E estando nesta condição, Bruno aprisiona esta coleção e a torna pública, mas que permanece em segredo. Sua obra consiste em expor um segredo tornado público, e colocado em estado de conserva. Resta ao observador criar sua própria narrativa a partir dos fragmentos que podem ser vistos. Em voz baixa: o trabalho de escolher em quais garrafas os desenhos iriam ficar se assemelha ao pingar da chuva dentro das garrafas no filme de Tarkovsky. Com a diferença que a água evapora e deixa apenas uma quase-marca na superfície, e na instalação de Bruno Novaes eles permanecem como se na verdade ali houvessem vidros de loção prontos a evaporarem quando alguém, por um descuido, retirasse a rolha.

 

Segredos aprisionados em garrafas de ar

Juan Casemiro

no contexto da exposição de Passagens

no Memorial da América Latina/SP - 2015

Passagens, 2015 - 2017

Desenhos, anotações e objetos de viagens dentro de trinta e uma garrafas de vidro de tamanhos variados.

Exposição coletiva

 Contraponto

Pinacoteca de São Caetano do Sul - SP - 2017

curadoria Valdo Rechelo

 3º Salão de Outono da América Latina

Memorial da América Latina - São Paulo - SP - 2015

 14º Salão de Arte Contemporânea de Guarulhos

Guarulhos - SP- 2015

Sei que sussurro para quem consegue ouvir