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Corpo Decente

2018 

Instalação sonora

300 quilos de giz branco de lousa e

50 minutos de áudio em looping com depoimentos de professores que foram censurados e/ou discriminados

Dimensões variáveis

Manual de conduta de corpo docente

2018 

Nanquim sobre papel

35x30cm cada

Manual de conduta de corpo docente

2018 

[livreto]

 Reprodução digital em offset

12 páginas

15x10cm - distribuição gratuita

Ensino Confessional

desde 2017

Confissões pessoais e anônimas repetidas como exercícios de caligrafia

feitas pelo público a partir de instruções de uso na exposição

 

Esferográfica sobre papel e encadernação capa dura tipo brochura

51 volumes atualmente

15x21cm cada volume

trecho do áudio

Pequenos legados

[bandeira brasil]

2019

Aquarela  e grafite sobre papel algodão

70x50cm

Jogo dos erros

2018

impressão Jato de tinta

e nanquim sobre papel

díptico de 30x20cm cada

Bruno Novaes e os dias de chuva

por Mirtes Marins de Oliveira


Na exposição O professor deverá ser o último a se retirar, mesmo nos dias de chuva (Paço das Artes, 2019), Bruno Novaes propôs um diálogo entre ambiente escolar e alguns conteúdos disciplinadores do campo educacional a partir da evocação da experiência no espaço-escola, a sua própria e aquela que, intui, muitos viveram como alunos e outros como professores.  Atuou como professor por uma década ampliando as brincadeiras de criança, quando na Rua Maceió, em São Caetano do Sul, construía ambientes escolares imaginários. Assim, seu interesse em ensino e aprendizagem em arte é uma constante, corporificado nos trabalhos.

O artista oferece ao visitante envolvimento sensorial e afetivo naquele universo, como por exemplo no trabalho Ensino Confessional (2017-Atual), que solicita a participação na produção de confissões pessoais, inseridas de forma anônima e repetida em caderno de caligrafia e, de forma geral, instalado em carteira típica de salas de aula do século XX. Esse exercício, no qual a maioria dos visitantes participa com empenho e cuidado, mobiliza a memória sobre aquele espaço-escola a partir de suas formas recorrentes, disseminadas pelos processos civilizatórios do século XIX. Os cheiros, sonoridades, mobílias, organização espacial, cores, entre outros elementos, são característicos do formato arquitetônico escolar globalizado, pelo qual quase todo o mundo ocidental pautado pela hegemonia europeia no campo escolar teve contato. Por outro lado, sem dúvida, a articulação histórica da escola brasileira ao passado religioso com finalidade de catequese é provocada nesse mesmo trabalho, criando um ambiente no qual confissão, culpa e penitências estão presentes de forma transitória. O autor investe de forma precisa nestes lugares ambíguos, conectando saber e poder, singelezas e arbitrariedades, civilidades e violências, fragilidades e brutalidades. 

Além disso, cria contrapontos mais contemporâneos e documentais, como em Corpo Decente (2018), instalação sonora com depoimentos de censura ou discriminação aos professores em ambiente forrado com centenas de quilos de giz branco. Nessa relação entre som, estímulos olfativos e conteúdos a narrativa da instalação justapõe a censura aos alunos e professores. 

Historiadores da educação apontam para a expressiva significação do espaço-escola como elemento curricular, fonte de experiência e aprendizagem, um currículo oculto, controlador de movimentos, costumes (VIÑAO FRAGO; ESCOLANO, 2001) e do tempo com seus ritmos próprios, herdados da vida nos conventos. Para os autores, a arquitetura escolar é um discurso que institui na sua materialidade um sistema de valores, como os de ordem, disciplina e vigilância, marcos para a aprendizagem sensorial e motora e toda uma semiologia que cobre diferente símbolos estéticos, culturais e também ideológicos (VIÑAO FRAGO; ESCOLANO, 2001). O debate sobre o espaço tem impacto nos estudos contemporâneos desde a concepção física desdobrada em suas dimensões sociais, políticas, imaginárias e virtuais e o edifício escolar – e seu aparato material, as mobílias e superfícies – relaciona diferentes práticas históricas, superpõe técnicas de controle e experiências diversas dos seus habitantes. Os vestígios dessa vida podem ser captados a partir das provocações de Novaes, que, ao oferecer a materialidade física daqueles espaços, também apresenta a superposição dessas temporalidades para seu observador participante. Não foge ao seu radar a organização formatada e impeditiva da liberdade dos corpos, envolvidos, no ambiente escolar, na burocracia dos espaços e dos tempos, adestradores de obedientes, reguladores para uma vida correta e longe dos desajustes sociais. 

Não é possível tomar contato com esses trabalhos e não verificar as limitações do campo educacional e suas instituições como lugar de reflexão crítica ou ativadora de atitudes comprometidas com justiça social.

No caso específico da exposição, nas séries apresentadas, Novaes tende para a ambiguidade das formas exibidas – cuidadosas, delicadas, nostálgicas -  em confronto com os elementos de opressão daquele ambiente, em particular no que diz respeito às questões de gênero e de orientação sexual, apontando o bullying violento e tradicional que caracteriza a manifestação de preconceitos sociais sobre essas questões. Nesse sentido, Pequenos Legados (2019) apresenta a visualidade nostálgica dos anos escolares de maneira sensível mas que vai fechando o cerco em torno de uma herança material esvaziada de suas funções, ou que se transmutou em outros meios, mas que continua como pano de fundo intimidador do espaço-escola. Na exposição ficava evidente por meio do trabalho Jogo dos Erros (2018), por exemplo, que os sutis e sistemáticos ataques sofridos na infância e na escola, continuavam sob a forma mais perversa da perseguição disfarçada de preocupação: Bruno foi demitido de uma escola porque representava algo perigoso. Resta perguntar para quem.

As condições sociais nas quais a exposição foi inaugurada também leva a refletir sobre as diversas situações nas quais o circuito artístico era, naquele instante, agredido: assim como a definição do que seria educação passava por um esvaziamento simplista, a palavra arte era capturada por um filtro redutor que a pausterizava ao gosto de alguns, cujo pano de fundo parece ser uma estereotipada e generalizante noção de tradição artística pré-moderna. Nos dias atuais, no Brasil, esse constrangimento parece tomar conta do espectro não só da cultura, mas a todas as dimensões da vida. 

Há no conjunto de obras de Novaes uma outra evocação do ambiente educacional, a presença e importância da palavra, que designa, restringe mas amplia o mundo. Muito atento à sua potência a partir de seu uso, o artista identifica sua violência, demonstra as contradições presentes nos enunciados e como a palavra serve, também para a denúncia, reflexão e ação. Novaes é também cantor e o interesse na palavra esteve sempre presente: as modulações, extensões, sonoridades surgem nas instalações e como desenhos. Afirma: a palavra chega antes da imagem no processo criativo, como som, elemento gráfico, designações. Exemplares, nesse sentido é o conjunto denominado Manual de Conduta de Corpo Docente (2018), no qual textos e imagens sutis vão, a partir de processos de corroboração e contradição, construindo ou reconstruindo um cenário de pressão e violência explícitas.

 


Referência
VIÑAO FRAGO, Antonio; ESCOLANO, Agustín. Currículo, espaço e subjetividade: a arquitetura como programa.

Tradução: Alfredo Veiga-Neto. 2. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2001. 152 p. 

Inicio perguntando sobre a origem de suas práticas artísticas. Parte da relevância dos trabalhos que realiza reside nos problemas que coloca diante de uma realidade social e política cada vez mais tensa a respeito das questões de sexualidade e gênero no ambiente escolar e na compreensão do papel da escola e da educação. Como você localiza sua produção nesse contexto?

 

Bem, percebo alguns pontos de origem na minha prática. A começar pela palavra que sempre foi importante para mim e para a qual há uma relação anterior mesmo da minha produção em artes visuais. Como cantor, a palavra já era meu interesse. Minha monografia na pós graduação, inclusive, foi a respeito da palavra na canção popular brasileira. Acho importante dizer isso, porque acredito que seja desse lugar que parto muitas vezes. Em quase todos os trabalhos a palavra chega antes da imagem para mim no processo criativo. Seja como som, como elemento gráfico, como título. Me graduei em Design, e apesar de nunca ter trabalho como designer, noto também que existe o olhar naquilo que faço de quem se inclinou para o assunto. Fiz minha licenciatura em Arte e fui parar na escola. No ambiente escolar fiquei por uma década. Estar ali era, de alguma forma, voltar à minha brincadeira favorita de infância: a escolinha no fundo da casa da rua Maceió, ambiente equipado com lousa e carteiras de verdade, já que meu avô era marceneiro. Acredito que este seja outro lugar de origem pra mim. Com o passar do tempo, depois de assumir minha produção visual, é que consigo ver que esses pontos se confundem e se cruzam. São como matrizes adormecidas, que de vez em quando pulsam e trocam de lugares.

 

Sobre o contexto da educação, nos últimos anos, o fazer artístico se deu também junto aos alunos, de forma relacional, misturando ateliê e sala de aula, caminhando para uma noção de educação mais ampla. Isso é equivalente também na exposição, quando o público participa. É educativo mesmo fora dos muros da escola. Me interessa esse lugar entre arte e educação. Produzir dentro e fora de sala de aula enquanto o cenário brasileiro foi se tensionando, naturalmente também me afetou. Sala de aula, vida e trabalho, se misturam. E por esse corpo também passam as questões de sexualidade que você comenta. Há uma relação entre o que vi ali depois que voltei para aquele ambiente, já adulto, e o que passei naquele lugar quando criança e adolescente: piadas, opressão, o crescer ali dentro. Isso não foi e nem é só meu, mas estar ali como professor e viver aquilo de novo, faz com que meu trabalho toque nessas questões. Gosto desse lugar de quem observa a vida ao redor, silenciosamente. Coisas que poderiam ser privadas e íntimas, se confundem e tomam espaço público, termos, documentos, protocolos da escola ganham outros significados.

Peço que você relate, na medida do possível e de seu interesse, a questão de seu desligamento de uma escola particular que resultou nos documentos expostos na mostra. Por que decidiu transformar esse informe – seu desligamento - em obra?

 

Pela troca e relação que eu tinha com aqueles alunos, nessa escola, durante seis anos intensos, produzindo junto com eles muitos dos meus trabalhos. Essa​ mistura de vida pessoal e trabalho, essa mistura que está presente na minha produção, de certa forma é também responsável pela ruptura. Mas o que me assustou foi a maneira conturbada e preconceituosa desse desligamento, além de silenciosa e velada. Acho que o silêncio é o que mais incomodou. Depois de um tempo para digerir é que as ideias chegaram. Entender o que aconteceu, porquê e para quê, algo que ocorre também com outros professores, e poder dar voz a essas vozes.

 

Como professor que também é artista, ou artista que também é professor, você verifica diferenças em termos de recepção dos públicos? É necessário estar na condição de aluno para uma compreensão mais sensível de seu trabalho? Você percebe diferenças nessa recepção?

 

Como quase todo o público é ou já foi aluno, o resgate é realizado pela memória e cada geração acaba tendo a sua percepção de acordo com o tipo de escola que viveu. Há também quem se coloca no lugar do professor, ou professores que se percebem novamente professores ali.

 

A escola que você evoca nas instalações, desenhos, objetos parece não existir mais, principalmente porque as recobre de um olhar sensível e amoroso. Você poderia falar das origens de seu trabalho e se existe de fato essa perspectiva? Claro que alguns trabalhos são comentários muito ácidos sobre a questão do bullying e dos preconceitos presentes no ambiente escolar, mas verifico uma ambiguidade nesse tópico.

Totalmente. Essa ambiguidade me interessa. Não acho que somente gritando é possível de ser ouvido, gosto das sutilezas, do sussurro. Me interessa essa amorosidade para falar de questões ácidas e difíceis. Talvez esse olhar sensível esteja associado ao fazer naquele espaço, de estar verdadeiramente presente nele e das relações que construí ali. Há alguns anos, esse lugar não existe mais para mim. Hoje essas escolas acabam sendo semente que ajudam a recuperar a memória do primeiro espaço escolar, a escolinha nos fundos da casa. E memórias podem se confundir, idealizadas ou romantizadas. Pode ser que eu esteja de novo brincando de escolinha. Ou que nunca deixei de brincar.

 

Entrevista com Bruno Novaes por Mirtes Marins de Oliveira

para a exposição O professor deverá ser o último a se retirar, mesmo nos dias de chuva

pela Temporada de Projetos - Paço das Artes - 2019