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A tarefa de se juntar com um colega para realizar um trabalho, o trabalho em dupla, tão familiar ao ambiente escolar, pareceu um bom jeito de falar sobre as várias formas de encontro entre dois elementos, que – sejam iguais, diferentes ou complementares – se empenham na construção conjunta de algo. Esse, que é um dos primeiros exercícios de alteridade ao qual somos submetidos, atua como espinha dorsal desta exposição, que já nasce como duplo: ao mesmo tempo que os trabalhos de Bruno Novaes são expostos no Espaço Marco do Valle, também é exibido o Diário 366, no MAC-Campinas.


E é isso que nos faz começar pelo Apêndice. O que geralmente vem no final dos livros, aqui é o nome de dois trabalhos que aparecem logo no início da exposição. O primeiro remete ao Diário 366, apresentado a apenas 600 metros daqui. Uma fotografia de um pai ensinando a um filho é posta ao lado de uma página pautada com campos para preencher data, local, assunto e participantes de um dado compromisso. De um lado, a transmissão calorosa de saberes, do outro, a rigidez das reuniões de negócios agendadas. O segundo Apêndice, decompõe a imagem paternal do primeiro. Os planos da fotografia são desagregados e aparecem em uma espécie de radiografia que chama atenção para a construção visual da cena. Elementos como roupas, gestos e sombras, se destacam como veículos dos conhecimentos legados que formam o sujeito, pela aceitação ou pela recusa.


Então, são evidenciados os primeiros duos: as duas exposições, os dois trabalhos de mesmo nome, a fotografia e a agenda, o pai e o filho, eu e você, que está lendo; o artista e eu, que escrevo. Conforme adentramos as salas, vemos mais pares, dualidades e antíteses que se atravessam ou se confundem. O professor e o aluno, o exemplar e o falho, a obra e o público, o artista e a curadora, o souvenir e a lembrança, os antônimos, o observador e o observado, a construção e a desconstrução, o objetivo e o subjetivo, o documento e as entrelinhas não ditas, entre outras relações que somos convidados a procurar. Seja quando duetos ou quando duelos, os diálogos não são suaves. Requerem negociação, concessão e conciliação, e alguns encontros geram embates que promovem mais limites que potencialidades.


Dentre as relações investigadas nas obras, predomina a mão dupla formada pelo ensino e pela aprendizagem, que são olhadas por Novaes nas maneiras como acontecem – e como aconteceram no passado – na esfera formal e também no âmbito informal. As construções de subjetividade são exploradas, nas maneiras como se dão a partir de relações familiares, profissionais e afetivas, bem como a partir das imagens que nos cercam e dos objetos de consumo. Entre a reflexão e a interação, o trabalho de Novaes nos ensina na mesma medida que aprende conosco, lançando constantemente perguntas sobre os diversos lugares e agentes da educação. Quem pode ensinar? Quem pode aprender? Onde se pode ensinar? Onde se pode aprender? E quais são os conteúdos que ensinamos e aprendemos?

 

Érica Burini

texto para Trabalho em Dupla

exposição individual

Espaço Marco do Valle - Campinas - 2022

Apêndice

2021

impressão jato de tinta

sobre papel polén

e página de bloco de notas.

36x39cm

Enleio: simpatia para fazer sobreviver

2022

escultura em resina quebrada, taça de vidro quebrada e novelo de cabelo expelido por rodízio de cadeira.

20x20cm.

Exercício de revisão

2021-2022

recorte de material educativo

da década de 1960,

nanquim sobre papel algodão

e prendedor metálico.

13x16cm cada

Apêndice

2022

lápis de cor sobre papéis mostrados em caixa de luz de metal galvanizado.

28x20cm

Intervalo

2019

pigmento mineral sobre papel algodão

60x90cm

Modelo vivo

2022

desenho cego com giz sobre partes de carteiras escolares e estrutura metálica de carteira escolares.

dimensões variadas

Jogo dos erros

2018

 impressão jato de tinta e nanquim sobre papel.

díptico.

30x20cm cada.

Intervalo

2020

ardósia, peroba, giz branco de lousa e participação do público

120x100x60cm

confecção: Gustavo Lourenção