Os mundos das coisas e as coisas do mundo - Fabiana Bruno - posfácio do livro Diário 366 - 2021

São Paulo, 02/03/2021, 23h52 - Julia Lima - prefácio para o livro Diário 366 - 2021

Modos de contar o tempo - Julia Lima - exposição Diário 366 - 2021

escola de brincar - Bruno Novaes - O jogo que continuamos a brincar, mesmo depois de grande, é a brincadeira do esconde-esconde
Victor Santos - Hecatombe - 2021 

Character education - Adam Zucker - Artfully learning - 2021

Intervalo - Diran Castro - 30º Programa de Exposições do Centro Cultural São Paulo - 2020

O processo de formação como obra - Leandro Muniz - Revista Select - 2020

Escola de faz-de-conta - Bruno Novaes - Revista Tonel - 2020

As coisas que nos cercam - Milena Espinoza - Grupo Entre Educação e Arte Contemporânea - UFES - 2020

Bruno Novaes e os dias de chuva - Mirtes Marins de Oliveira - catálogo Temporada de Projetos Paço das Artes - 2019

Entrevista Paço das Artes - Mirtes Marins de Oliveira - Temporada de Projetos Paço das Artes - 2019

Entrevista Arte Londrina - DAP - Arte Londrina 7 - 2019

Capítulo 2: O professor deverá ser o último a se retirar, mesmo nos dias de chuva - Julia Lima - 2018

Capítulo 1: O corpo mente menos que as palavras - Julia Lima - 2018

Segredos aprisionados em garrafas de ar - Juan Casemiro - 2015

 

Os mundos das coisas e as coisas do mundo

por Fabiana Bruno

posfácio do livro Diário 366 - 2021

“Todas as imagens vão desaparecer”, escreve a escritora francesa Annie Ernaux em Os anos, uma autobiografia que mescla o registro pessoal à chamada grande História. 

“...as imagens reais ou imaginárias, que permanecem conosco durante o sono

as imagens de um único instante tocadas por uma luz que só pertence a elas

Vão se acabar todas de uma só vez, assim como milhares de imagens que estavam na cabeça dos avós mortos há meio século e dos pais também mortos (...) E, um dia, nós estaremos na lembrança de nossos filhos no meio de netos e de gente que ainda não nasceu. Assim como o desejo sexual, a memória nunca se interrompe. Ela equipara mortos e vivos, pessoas reais e imaginárias, sonho e história (...)”.

Existir, dá relevo a autora, “é beber sem estar com sede. 

o que você estava fazendo no dia 11 de setembro de 2001?”

Diário 366 é um projeto de criação artística e relacional que se consolida no abismo fascinante dos diários, das complexidades das produções autobiográficas e das interrogações sobre o fazer das histórias por apagamentos e desaparições. Não se trata apenas de um projeto pessoal, mas de uma mescla de como os dias de cada um de nós podem tocar uma certa história, que não é mais apenas a nossa.
O mecanismo do trabalho deste livro segue a montagem das respigas coletadas no dia-a-dia de um ano bissexto como um calendário-tabuleiro de coisas e dias. A criação de um diário por Bruno Novaes, quando lançada à deriva de convites distribuídos via rede social, transgride as imagens de um diário pessoal, acumulando outras espessuras a um acervo de experiências sobre os dias de muitos outros participantes.  
Em Diário 366 somos lembrados de que inventamos não apenas pessoalmente, mas coletivamente, os dias em nossa vida.  Sobretudo, somos instigados a olhar sobre os dias que falham, desaparecem das páginas e do calendário, e que, portanto, parecem ter deixado de existir na nossa história como história. Dias vazios.


Então, a que se destinaria um diário que dá relevo aos dias vazios? Diário 366, que tem efetivamente um dia que nem sempre existirá nos calendários gregorianos, o 29 de fevereiro, se aproxima mais de um quase-diário. Bruno Novaes se ocupou de colecionar coisas, textos, cartas, imagens ao longo de 366 dias, mas preencheu o gride desse calendário com 86 vazios e 37 extravios. Cento e vinte três dias não ocupados por coisas e imagens nos perturbam como faltas e incompletudes ao mesmo tempo que abrem espaço, deixam brechas, para desejar e imaginar. Lá onde há falhas, há espaço para a invenção.
O trabalho artístico apodera-se dessas lacunas dos dias vazios e dos extravios das coisas como potências de um devir. Escancara carimbos e marcações gráficas para essas ausências presentes como territórios desejosos e convites para imaginar. Dias vazios, o que existencialmente eles podem ser? Dias vazios, o que eles podem ser para a história? 

Os resultados poéticos dos vazios e extravios de Diário 366 espraiados nas páginas deste livro-quase-diário entrelaçam-se às heranças de 243 coisas-migrantes chegadas com “sucesso” dessas coletas, pós envios postais, confiados ao método da deriva. As 243 coisas recebidas na troca dos postais – e que um dia foram páginas de um diário pessoal – mostram-se como um “pequeno arquivo coletivo de coisas e dias ordinários”. Objetos que viajaram, migraram e insistiram nesse deslocamento espacial e temporal perpassam de uma vida, daquilo que foram um dia, para se tornarem outras coisas emergentes, pulsantes e carregadas de desejos e memórias. 


As coletas dispostas nas páginas desse livro, no calendário ou ainda na mesa de montagem da exposição, nos remetem a outros projetos admiráveis como o Museu da Inocência, idealizado pelo escritor turco Orhan Pamuk, que não apenas rendeu uma fabulosa catalogação não-classificatória, mas fez nascer potências narrativas na forma de romance escrito para o seu livro homônimo ao projeto do museu.


É assim também que a força poética e estética de Diário 366 desdobra-se em outras potências imaginativas. Os silêncios das coisas rompidos pelas fabulações que passamos a construir de um quadro a outro do calendário, de uma página a outra deste livro, transbordam os dias meramente ordinários e impulsionam enredos, vidas e histórias. Fazem dobrar dias esquecidos em abismos de memórias. Fazem dobrar dias em imagens, que como tais desaparecerão, restando sopros de desejos e reaparições

 

São Paulo, 02/03/2021, 23h52

prefácio para o livro Diário 366

por Julia Lima

Hoje acordei cansada. Passeei com o Ziggy, que não come direito há uns dias mas roeu alguns dos meus livros mais queridos. O bom é que não consigo ficar brava com aquela carinha. De volta em casa, percebi o quanto ando desorganizada - preciso ter mais disciplina! Sem muita comida na geladeira, pulei o café da manhã, como tenho feito ultimamente. O engraçado é que eu sinto falta, mas não sei muito como resolver esse dilema. Fiz análise no meio do dia, e chorei pela angústia e medo de não dar conta de tudo. Às vezes a gente fica inundada e afogada pela vida. De tarde, dormi um pouco, acho que meu corpo estava pedindo. Trabalhei algumas horas, já que ontem comecei um novo trabalho e preciso dividir bem o dia. Desconfio que vai demorar umas semanas para me acostumar ao ritmo mais fixo e estável de um emprego. Depois, sentei pra terminar o prefácio do “Diário 366”, mas não consegui, porque sabia que logo ia dar aula, e minha cabeça estava dividida. Aliás, as aulas de terça me alimentam demais e me dão um propósito imenso na vida. É precioso perceber que às vezes sou capaz de dizer coisas que ajudam outras pessoas, que despertam um insight ou reverberam de maneira positiva. Terminei o dia ainda cansada, mas mais feliz. Sentei pra comer, pra ver um reality na tv e, de novo, para terminar o texto. Percebi que nunca escrevi numa página de diário, acho que não via muita lógica em escrever pra ninguém ler. Mas, quem sabe, não é esse um começo?

A cada ano, calendários, diários e agendas tem as suas páginas preenchidas ao longo dos meses, com registros e documentações dos dias. Os diários, mais especificamente, são retratos não só dos fatos banais ocorridos ao longo das horas acordadas, ou dos sonhos da noite anterior – e dos ocasionais eventos excepcionais –, mas também fiéis depositários de profundas confissões, afetos e angústias, das impressões e dos desejos íntimos de alguém. Cada entrada configura um relato híbrido entre fato e percepção, veracidade e ficção, revelando de maneira premente (e não-mediada) o ponto de vista do autor. Sua natureza intimista, confessional, e até sigilosa, é também talvez um pouco narcisista, estruturando-se em primeira pessoa; sua linguagem principal é a escrita; e sua fruição é, quase sempre, destinada apenas a quem o escreve – uma narrativa sem filtro e sem necessidade de edição, aproximada da carne da vivência individual. É, ao mesmo tempo, a materialização de muitas vozes internas que, em público, silenciamos em favor da boa convivência, da civilidade e da educação, mas que podem ser livremente derramadas no papel sem medo das contradições, incoerências e, quiçá, ilusões inerentes à perspectiva singular. Assim, ler um diário alheio pode ser o mais próximo que podemos ter de ver o mundo pelos olhos de outra pessoa.

No ano bissexto de 2016, Bruno Novaes se propôs a construir um diário à sua maneira, registrando todos os dias a data corrente por meio de desenhos, aquarelas, fotografias, colagens, costuras ou intervenções que experimentassem com o formato e o papel. Fugindo da convencional escrita confessional, realizou um exercício poético-simbólico de anotação diurnal por meio da imagem. Esse exercício estava ancorado no desejo de explorar noções e interpretação do diário como ferramenta do conhecimento de si (e, mais tarde, do outro), para além das entradas narrativas. Ao concluir esse processo, o artista digitalizou e transformou todas as páginas produzidas em cartões postais, imprimindo-os para formar uma coleção de 366 fichas diferentes. 

Essa operação configurou-se como uma primeira subversão: Novaes converteu seu diário pessoal em algo cuja função primordial é circular abertamente entre pessoas, alterando definitivamente o modelo do diário comum. Mesmo que o postal se preste à escrita, não estamos mais lidando com uma esfera confidencial, e sim com algo que se presta à comunicação pública. Levando precisamente em conta essa condição dialógica do material, o artista, então, passou os quatro anos seguintes (entre 2017 e 2020) realizando um extenso processo de trocas e construção coletiva que perverteu ainda mais o intimismo e o sigilo em favor de uma dimensão compartilhada. Pela internet, anunciava regularmente uma oferta de escambo: quem quisesse participar do projeto, escolhia uma data que lhe fosse cara. Se disponível, o interlocutor receberia pelo correio o postal referente àquela data, sem saber o conteúdo da imagem – e sob a condição de que uma vez que recebesse o cartão, enviaria de volta uma resposta relativa à escolha daquele dia. 

Os participantes, movidos por associações afetivas, por feriados e datas comemorativas, por eventos políticos relevantes ou predileções aleatórias, passaram a compor uma rede pública de transações íntimas, uma cadeia ampla e espontânea de confidências entre conhecidos e desconhecidos. As respostas chegaram nos mais variados formatos: centenas de textos, cartas, bilhetes, fotografias, desenhos, objetos e peças foram sendo devolvidos ao longos dos anos até o final de 2020 (também bissexto), quando as trocas se encerraram.

Com todo este acervo acumulado, a última etapa do projeto consistiu na edição desta publicação, que não apenas conta uma versão da história dos 366 dias que formaram o ano de 2016, mas também retrata, de alguma forma, incontáveis dias, meses e anos por meio de todas e todos que se dispuseram a participar desse intercâmbio. Juntos, cada um dos destinatários desses postais tornaram-se guardiões coletivos do diário de Bruno Novaes. Depois de espalharem-se pelas mãos de muitas pessoas e por muitos lugares, as páginas do “Diário 366” agora se reencontram e se reúnem aqui, em um formato que as aproxima de sua forma original. Mas, mais do que isso, dispostas lado a lado com os retornos (e extravios, silêncios e ausências), constituem uma versão dupla e ampliada do diário, reencarnado neste livro.

 

Modos de contar o tempo
por Julia Lima para a exposição Diário 366 - 2021

A cada ano, calendários, diários e agendas tem as suas páginas preenchidas com registros e documentações dos dias. Os diários, mais especificamente, são retratos não só dos fatos banais – e dos ocasionais eventos excepcionais –, mas também fiéis depositários de profundas confissões, afetos e angústias, das impressões e dos desejos íntimos de alguém. Cada entrada configura um relato híbrido entre fato e percepção, veracidade e ficção, revelando de maneira premente (e não-mediada) o ponto de vista do autor. Sua natureza intimista, confessional, e até sigilosa, talvez seja também um pouco narcisista, já que estrutura-se em primeira pessoa; sua linguagem principal é a escrita; e sua fruição é, quase sempre, destinada apenas a quem o escreve – uma narrativa sem filtro e sem necessidade de edição, aproximada da carne da vivência individual. É, ao mesmo tempo, a materialização de muitas vozes internas que, em público, silenciamos em favor da boa convivência, da civilidade e da educação, mas que podem ser livremente derramadas no papel sem medo das contradições, incoerências e, quiçá, ilusões inerentes à perspectiva de ponto singular. Assim, ler um diário alheio pode ser o mais próximo que podemos chegar de ver o mundo pelos olhos de outra pessoa.


No ano bissexto de 2016, Bruno Novaes se propôs a construir um diário à sua maneira, registrando diariamente a data corrente por meio de desenhos, aquarelas, fotografias, colagens, costuras ou intervenções que experimentassem com o formato e o papel. Fugindo da convencional escrita confessional, realizou um exercício poético-simbólico de anotação diurnal por meio de imagens, explorando noções e interpretações ampliadas do diário como ferramenta do conhecimento de si (e, mais tarde, do outro). Ao concluir esse processo, digitalizou todas as páginas produzidas e transformou-as em cartões postais impressos – uma coleção de 366 fichas diferentes. Essa operação configurou-se como uma primeira subversão: o artista converteu seu diário pessoal em algo cuja função primordial é circular abertamente entre pessoas. Mesmo que o postal se preste também à escrita, não estamos mais lidando com uma esfera confidencial, e sim uma dimensão pública – sem envelopes, postais circulam sendo lidos livremente por qualquer um que os manipule.


É a partir dessa condição dialógica do material postal que Novaes, então, passou a realizar um extenso processo de trocas e construção coletiva que perverteu ainda mais o intimismo e o sigilo em favor de uma esfera compartilhada. Durante os quatro anos seguintes (entre 2017 e 2020), pela internet, operou uma espécie de escambo: quem desejasse participar do projeto, elegia uma data e, se disponível, recebia pelo correio o postal referente àquele dia, sem saber o conteúdo da imagem. Em troca, uma vez que recebesse o cartão, enviava de volta uma resposta relativa à sua escolha. Movidos por associações afetivas, por feriados e datas comemorativas, por eventos políticos relevantes ou predileções aleatórias, os participantes passaram a integrar uma rede pública de transações íntimas, uma cadeia ampla e espontânea de confidências entre conhecidos e desconhecidos. As respostas vieram nos mais variados formatos: centenas de textos, cartas, bilhetes, fotografias, desenhos, objetos e peças foram remetidos ao artista até o final de 2020 (também bissexto), quando as trocas se encerraram.


Com todo este acervo acumulado, a última etapa do projeto consistiu na organização desta exposição na qual se exibem todas as páginas originais do diário, dispostas a formar um grande calendário, junto de todas as devolutivas de quem se envolveu nesse intercâmbio. Incidentalmente, porém, a mostra também foi ressignificada ao ser realizada hoje, em meio à pandemia, depois de mais de um ano de vais-e-vens de isolamento, restrição e quarentena, que mudaram tanto a nossa relação com o calendário. De um ano para cá, os dias e as horas parecem-se uns com os outros, sempre os mesmos, enquanto também passam demasiadamente acelerados, e o tempo nos escapa.


Assim, abrem-se aqui todas páginas do que um dia foi o ano de 2016 na vida de Bruno Novaes, agora acompanhadas por este acervo coletivo construído por muitas pessoas, muitas histórias e muitos lugares. O conjunto se apresenta como uma versão dupla e ampliada do diário, contando a história de um passado ano de um dia a mais, em um ano no qual os dias parecem não passar.

escola de brincar

Bruno Novaes

publicado no livro O jogo que continuamos a brincar, mesmo depois de grande, é a brincadeira do esconde-esconde

Victor Santos - editora Hecatombe - 2021

"Quando Eros está presente no contexto da sala de aula, então o amor está destinado a florescer. Persistentes distinções entre o público e o privado fazem-nos acreditar que o amor não tem lugar na sala de aula. Para restaurar a paixão pela sala de aula ou para estimulá-la na sala de aula, onde ela nunca esteve, nós professores e professoras, devemos descobrir novamente o lugar de Eros dentro de nós próprios e juntos permitir que a mente e o corpo sintam e conheçam o desejo."
[eros, erotismo e processo pedagógico - bell hooks]

Desde que suas perguntas me chegaram, junto aos textos que constroem esse livro, fui profundamente tocado pela noção de sobreviver ao inferno escolar, brincando - antes, durante e depois - de esconde-esconde. Me lembro de brincar com os adolescentes que o melhor do ensino médio era poder sair dele. Passar pela escola, mais de uma década, a espera do fim. Isso agora me chega como mais um modo de camuflagem passiva. De parecer não se afetar e não se relacionar com o outro, com a escola, com o que nela nos acontece. Como se apenas precisasse esperar que aqueles longos anos acabassem, para que aí sim, pudesse começar a viver. Ser alguém na vida. Mas então me lembro que, mesmo fora dos muros, depois do curso, continuamos fora de foco, pelos cantos. Desculpe não responder suas perguntas seguindo a entrevista que você propôs, nem como respostas grafadas por extenso, em tinta azul, numa prova. Vou tentar organizá-las e depois sentir o que delas toma o meu corpo para formar o corpo desse texto. São muitas memórias, histórias e depoimentos que poderiam fazer parte de tudo isso. Vamos ver o que parece ser mais pulsante. 

inventar mundos quando o mundo não parece seu


Temos ouvido e repetido sobre a reinvenção de um mundo. Sobre o outro. Sobre o eu. Sobre modos de existir divergentes. Crescemos em meio a um mundo cis-heteronormativo que, em alguma instância, nos faz imitar seus padrões e, por outras vezes, inventar nossas existências. Lembro do primário, na sala da quarta série, onde tinham dois Brunos. Um deles era mais efeminado e fazia com que, no fundo, o mais discreto sentisse alívio por não ser ele o motivo de gozação dos meninos. Havia ali um escudo. Uma frágil proteção. Barreira que era corpo. Era alguém. Nunca pensei sobre ele. Nunca me coloquei em seu lugar. Não me ensinaram isso. Preferia passar despercebido. Camuflado. Aprender, forçosamente, as palavras e os gestos que nos distanciassem. Não era possível deslizar em público. Esse lugar escorregadio era privado. Fundo da casa - quarto de brincar. Espaço de fantasiar realidades e poder estar mais perto de você, quando se está sozinho num mundo.

o encantador de alunos

Consigo me lembrar o quanto o seu jeito me incomodava. Me perguntava se os outros alunos também suspeitavam de você. É engraçado como eu duvidava da minha própria sexualidade, e suponho eu, como não conhecia ninguém que fugisse do estereótipo heteronormativo, tive essa reação. O tempo passou, e conviver e amar a sua pessoa me possibilitou conviver e amar a mim mesmo. Hoje olho pra você, pro jeito como se veste e corta o cabelo, leva a vida e coloca arte em tudo que toca, e me inspiro. Você é muito mais que um professor pra mim.
[trechos de uma carta para um professor canceriano - P.P.]

Percebo que muito disso ressoou em mim. Em algum lugar de dentro. Naquela criança que me habita. Na lembrança ginasial do professor gay de Inglês, espelho negado. Na memória daquela pessoa mais velha, de rosto e gênero indefinidos, do almoxarifado. A adolescência trincou cascas e a entrada na vida adulta se deu de asas semi-abertas. Pra fora do armário, ainda de camisa polo e calça cáqui, voltei à escola. E, com o passar dos anos acenderam-se faíscas no embate entre aquele espaço e um corpo que se descobria existir fora dele. Não sei precisar qual identidade foi mais responsável por me fazer perguntas durante os anos em que a escola me acordou - professor-artista-criança-pessoa-gay - O que fiz e o que não pude fazer para esses alunos? Onde me via e me reconhecia neles? O que repetia, perversamente, sem perceber? E como, percebendo, poderia mudar? Foram milhares de crianças e adolescentes com quem estabeleci diferentes relações ao longo do percurso. Não consigo falar de todos eles. Lembro de muitas histórias, apesar de me fugirem os nomes. Elejo então aquela turma - grupo de adolescentes de salas e anos distintos. Uma turma que continua a existir como ficção e narrativa em mim. Escolho falar dela porque sei que nos estudamos para além do desenho. Em traço e gesto, o corpo se fez presente. Mesmo numa escola que desassocia corpo e mente. Que considera o corpo, apagado - vestígio de corpo docente. Pude ser inteiro e fazê-los se descobrirem inteiros também. Quebrar as janelas das salas, deu a ver vizinhanças. Respeitá-las pelo convívio. Reconhecer o outro. Enxergar e ser enxergado. Permitir se permitir. Para além de luz e sombra, um jeito de olhar des-opaco. Para além de retas e pontos de fuga, um caminho torto que foge à regra. Para além de movimentos, ismos e esmos, um jeito ermo de ser que pode ter feito o amor florescido. E sim, a grande maioria é hétero - ou pelo menos exercita assim sua sexualidade. Não é sobre isso. Nunca foi. Nem precisaria ser. Parto de um desejo de voar. Não me ensinaram isso. E eu sei que também nunca precisei professar isso a ninguém. Mas tem coisas que a gente ensina, mesmo sem saber. 

corpo decente


É Novembro de 2017. Uma roda de conversas. Aqueles jovens sairão da escola em poucos dias. Passarão a viver com ela, do lado de fora. Muitas perguntas precisam ser respondidas. Eles parecem ter ânsia de ouvir, pela voz que escapa, as respostas precisas. As palavras corretas. Eu as falo. Talvez, pela primeira vez. A escola está em suspensão. São os últimos dias de recuperação. Notas a serem fechadas. As pessoas parecem esperar o momento certo de agir para cada coisa que precisa ser ajustada. A-jus-tes. Um que desencadeia o outro. O próximo, sou eu. Cinco de Dezembro. O jogo da vez é o jogo dos erros. De um lado não serão mais utilizados seus serviços pela nossa empresa. Do avesso, doutrinar e aliciar crianças - uma realidade inapropriada. Saio sob uma chuva de pétalas e pedras. Não havia nada, pedagogicamente, que pudesse me tirar dali. Havia um corpo existindo fora e que se corporificou demais do lado de dentro. Era como se metade de mim fosse digna de aplausos e a outra parte não tivesse alguma dignidade. Passo a ouvir histórias de outras pessoas desajustadas. Relatos docentes que compõem um Corpo decente - corporificado em cinquenta minutos de voz e centenas de quilos de giz. Corpos que se chocaram com escolas. Desmaterializados, descorporificados, despixealizados. Valorizam nossa mente como se esta estivesse separada do corpo. Como se não aprendêssemos com todo ele. Como se não existíssemos em sua totalidade. Falam pelas costas. Sabemos por todos os lados.

brincar de escola, brincar na escola


Volto àquele quarto de brincar - fundo de casa. Brincar na escola foi um procedimento que me acompanhou em diferentes instituições por onde pude escorrer e até escorregar. Penso o brincar como instauração de uma atmosfera simultânea à realidade, que extrapola idades. Como aquilo que nos coloca em contato com nossa natureza. Pode ser uma herança vinda da criança, que fabula e imagina. Um canal aberto, um exercício de revê-la e poder fazer justiça. Mas para isso, é preciso também, do outro lado, a consciência do educador - adulto que brinca. Alguém disposto a desaprender. Inclusive que não se espera dele, brincar. Criança-professor. Esses tempos sobrepostos conviveram comigo e é certo que ainda convivem. Acho que só quem entrou numa escola depois de crescido sabe o que é isso que estou falando. E como, mesmo fora dela, ela continua dentro. É uma dessas coisas que nos começam de pequeno. Sim, muita coisa a gente começa de pequeno. Sentir diferente um amigo. Perceber que não é permitido fazer isso. Tentar esconder. Descobrir que há regras para os sentimentos. E tentativas de controle sobre nossos corpos e nossos desejos. Desejo poder distorcer certas cartilhas aprendidas. Inscrever contranarrativas em novos materiais para novos tempos. Abrir fendas e iluminar as subjetividades ocultas do currículo, as coisinhas dos cantos, as relações e aprendizados que ressoam para além-muro. Da gente que margeia o padrão. Aliás, transtornar padrões. Fabular futuros possíveis quando o que se apresenta parece não ter futuro. Acho que isso se assemelha, em certa medida, ao processo de brincar. Reagir a incompletude. Ampliar o mundo. O jogo como organização de experiências em estratégias que provoquem um riso torto. Procuro aprender novos modos de fazer. Seja sozinho ou em grupo, brincar se dá na relação com um outro. Num fundo de casa, num canto de escola, de um lado ou de outro do muro. Fora de armários, poder cantar em silêncio-eloquente. 

 
 

Character education

Adam Zucker - Artfully learning - mar2021

A popular saying is that the best laid-plans often go awry. Despite how carefully we plan for something, there are things both apparent and unforeseen that could still go wrong. This is absolutely true within the educational sphere where teachable moments, flexible purposing and adaptability (see: Eisner, 2004) are essential modes of operation.


Educators rarely go into their classroom with a fixed script. They know that using a finite method to direct their students’ course of learning is generally inadequate and counterproductive. This is because education is not a one-size fits all endeavor. Unfortunately, the willingness and understanding possessed by teachers, which reflects best practices and experiences in pedagogy and a passion for supporting students’ social and emotional growth, is sometimes obstructed by forces outside of schools. The overarching influence of bureaucratic commonization and standardization of curricula has stifled the creativity, criticality and morality of educators, students and school administrators (see: Ravitch, 2013; Vilson, 2013 and Greene, 2014).


One major outcome of educational bureaucracy is social conformity (see: Mohammadi, 2000). The desire to mold and maintain social norms is a catalyst for the implementation of pedagogical standards, such as the common core curriculum and stringent instructional and cultural hierarchies. Under this system, measuring predetermined proficiency and meeting performative standards matter more than developing and nurturing diverse perspectives, democratized collaborations and critical thinking. Social conformity affects educational indicators, such as what is deemed necessary to teach and how students should behave, by focusing on subject matter, character values and morality that are desired within the status quo. This can implicitly neglect or explicitly dissuade students’ autonomous expressions of cultural intersectionality and the fluidity of gender (see: Alber, 2017 and Chidi Nduagbo, 2020).


Measuring students by test scores and adhering to sociocultural and political norms instead of honoring and exploring their humanity and ingenuity is a sure sign of our collective moral depravity. In the article, “Bureaucracy and Education: An Examination of the Foundation and the Impacts of Bureaucracy on the Purpose of Twentieth Century Education,” Mohammadi (2000) states that “The bureaucratic method of school management has had a dichotomous effect on the purpose of schooling.  In the late nineteenth century, the system performed its tasks flawlessly.  It promoted social conformity in an increasingly complex society.  Bureaucracy was an excellent method of organization.  However, these same qualities have had detrimental effects in the twentieth century.  The time for social conformity has long passed.  In the innovative world of the twentieth century, there is little room for conformity.”


While there are good pedagogical methods that focus on social and emotional learning and educating the whole child (see: Noddings, 2015) already being employed; the application of these practices can fall prey to the aforementioned desire to uphold the status quo and shape social, cultural and emotional behaviors that are inline with a governing or administrative body’s idealistic political and economic aims.


The fallacies, failures, trials and tribulations of educational indicators and social and academic benchmarks, influence the content of Bruno Novaes‘ multidisciplinary and experiential artworks, which depict a physical and metaphysical structure that he calls “character education.” Novaes is an artist and educator from Brazil. His background teaching adolescents in formal education settings inform his critical body of work, addressing what he describes as “a hidden curriculum that points to what we have learned, discovered and invented and that hegemony cannot handle.


Novaes’ conceptualization of character education envisions a kind of school whose mission is to focus on students’ academic proficiency within the curriculum, while also developing their moral outlook. Material depictions of this school and its pedagogy are drawn from his own educational experiences (as both a student and a teacher), pedagogical philosophies and his imagination. Novaes’ artwork reflects ideas and aesthetics of contemporary schooling through a series of experiential activities and objects presented in ways that resemble familiar educational environments and teaching methodologies.


Teaching staff’s conduct manual (2018) is an installation that addresses the idealism of academic and social performance. It includes an edited compilation of rules that are sourced from conduct regulation documents, which are given to teachers upon employment and at the beginning of each school year. Novaes published these rules as a re-presented guidebook and distributes free copies whenever the work is exhibited. Novaes accompanies the publication with ten ink drawings depicting a school environment that is informed by the standards and codes described within the guidebook.


The idea of trying to make each student’s lives more fulfilling and productive is obviously great in theory, but sometimes in practice it can ignore the crux of why these students are feeling downtrodden. To address this, educators must have ample time and the means to get to know their students. Professor of education, Rebecca Alber (2018), argues that a “rigid, standardized approach to teaching contradicts so much of what we know from whole-child education research. It can sabotage the humanness of all those beings growing and exploring daily together in one room.”


Each student brings a complexity of identity, social and academic behaviors into the school environment. Education should be an engaging process, where students have agency in creatively constructing information from lessons in accordance with personal collective experiences that have relevance in their lives. A way of achieving this is to set up pragmatic situations where students can partake in real world problem solving with their peers and eventually become self-directed learners. The teacher’s role is as a facilitator and a motivator. They set up situations for students to explore and express interests and issues, develop a thirst for acquiring knowledge and partake in transformative actions. The same is true of the socially engaged artist’s responsibility. It is important that the teacher and the artist leave ample room for their students or viewers to approach a lesson or work of art in an interpretative manner and feel empowered and emboldened to respond on their own terms.


Of course, the aforementioned principles are easier said than done. Human beings are very impressionable, which is evident from the plethora of media platforms and social networking sites that peddle false information, conspiracy theories and hateful rhetoric. Attempts toward indoctrination are unfortunately present within the educational realm and can include the refusal to teach evolutionary science, acknowledge students by their preferred pronouns, honor their civil rights and respect their boundaries and consent.


Addressing social inequity and resisting instructional dogmatism is where Novaes’ progressive educational derived work shines. Novaes is critical of trickle down approaches to teaching and learning. He has witnessed how good academic and ethical intentions were implemented in a manner that felt militaristic and pedantic. Through imparting standardized academic and social codes, a hegemony is established with students at the bottom. This unyielding procedure focuses on common sociocultural and emotional benchmarks instead of the humanity and everyday issues of the students, and can be a significant roadblock in their development and exploration of identity (see: Del Carmen Salazar, 2013).


Novaes’ art posits that inherent nature and experiential nurture work in tandem with regards to acquiring and communicating knowledge. We have certain imbued characteristics that are true to ourselves, and other forms of social, emotional and cognitive behaviors that we develop through experience and educational frameworks. The metaphor of the tabula rasa (blank slate) is a recurring theme in his participatory installations, such as Empty class (2018). The work of art consists of a pile of white chalk arranged on the floor in a towering mound. The pieces of chalk are supported by a blank blackboard. In Open draw (2020), blackboards, chalk and educational toys are transported outside of the classroom and installed in a public space. The installation utilizes interactive learning modules in an atypical space that is more indicative of a playground than a school. In each of these experiential works of art, Novaes gives viewers a chance to express themselves by making marks with the chalk, which become instant and informal conversations. The marks that are left, reworked and erased by various participants over time, suggest a sense of collaboration and inform others about the intersectional identities and dynamic culture of the surrounding locality. The crux of these works is that education can transpire anywhere, and profound learning happens when it is encouraged to occur organically and communally.


Brazilian educator, activist and philosopher, Paulo Freire developed a methodology that sought to make social and pedagogical relationships in schools and communities more democratic, socially engaged and emotionally empowering. His theory of problem-posing education, which he coined in his 1970 book Pedagogy of the Oppressed, opposes the idea and practice of teachers being the be-all and end-all of knowledge transmission within the educational system. Students are not blank slates or banks to be filled with information that only the teacher or curricula designers believe to be important. Problem-posing education is in stark contrast to the banking model of teaching, another term coined by Freire (1970), which he described: “Instead of communicating, the teacher issues communiqués and makes deposits which the students patiently receive, memorize, and repeat. This is the ‘banking’ concept of education, in which the scope of action allowed to students extends only as far as receiving, filing and storing the deposits.”


In a problem-posing model of education, knowledge is constructed through socially engaged conversations and actions between the teacher and the students. The classroom hierarchy is shattered when both students and educators listen, learn and collaborate together to address issues that are affecting their individual and collective experiences.


Novaes’ pedagogically infused artwork reflects Freire’s drive for epistemological equality and equity. This is evident in the collaborative mural-like work, Observation draw as an intervention (2018). The cultural organization, SESC São Caetano, invited Novaes to create a work of art for their art and technology site. He proposed that any work of art within the shared space should reflect the people who utilize it on a daily basis. During site-specific workshops (one for adults and another for children) Novaes and the participants made observational drawings of objects that were found within the community center. During the final meetings the collective arranged the drawings on the walls, creating an aesthetic conversation about the physicality and essence of the space, as well as the interests, vision and democratic impetus to depict shared experiences and memories. The drawings are simultaneously a unified portrait and still life, which function as a living legacy that meaningfully and critically embodies communal spirit.


Another collaborative project that reflects individual and community expression is How do you want to be remembered? (2017). Novaes developed this work of art with students who were in their final year of high school. After an in-class discussion about memory and identity, the students were presented with blank administrative cards (known as remissive forms) that are traditionally used by the school secretary to create a database of graduating students (a record of names, registration numbers and dates of birth). Once they had the cards, Novaes made a variety of art materials available and prompted the students to respond to the question “how do you want to be remembered?” These cards, which are usually marked with quantitative data became open-ended substrates for the students to symbolically represent their personas and react to their current and prior school experiences. Many of the students critically examined and commented on being identified via a numerical system (their student registration numbers), while others addressed standardized examinations and other formal assessments. As a series of works, the cards exhibit a student-centered revision and diversion of social conformity and impersonalization within a bureaucratic educational institution.


As previously mentioned, one of the more glaring issues in education as a product of social conformity, is gender inequality. There are schools throughout the world that refuse to accept that there is a spectrum of gender identities, which can not be defined as exclusively masculine or feminine‍. These schools uphold gender roles, which are shattering to students’ social and academic well-being. Even if schools do accept the truth about the intersectionality of gender, there is a shortage of pedagogical materials and training that reflects a fundamental understanding and portrayal of gender’s fluid nature (see: Alber, 2017; Chidi Nduagbo, 2020; and Rafferty, 2018). Traditional learning materials such as anatomy and biology charts, diagrams and texts, often adhere to and highlight gender disparities by focusing on standardized depictions of gender binarism. Several of Novaes’ artworks call out gender inequality by critically depicting the discriminatory normative imagery and vocabulary that is prevalent in educational curricula. His Spelling book (2017-2019) series presents drawings of school objects accompanied by phonetically written words that are commonly used to insult and harass LGBTQ individuals. Sciences book: basic education re-presents anatomical diagrams in a manner that is inclusive of transgender and non-binary representations.

Because we are in school during the formative periods of our development, schools are settings for a great deal of our most profound social, emotional and epistemological moments. Therefore, it is essential for schools to foster an inclusive environment for both academic and sociocultural development and understanding. An ideal character education cannot be defined or enforced, because it must allow for the complexity and fluidity of those who teach and learn in classrooms throughout the world. Novaes’ fictional school environment implores us to realize the problems our schools face and consider the possibilities for collaboratively creating an equal, equitable and social justice centered educational system. Hopefully life can imitate art.

Intervalo

por Diran Castro

30º Programa de exposições do Centro Cultural São Paulo

Bruno Novaes parte da inserção e observação das relações que se dão no espaço escolar. Tensiona as práticas de artista e educador e constrói materiais e documentos que reapresentam narrativas que se chocam e se confundem entre ficção e realidade. Deste modo, imagina o corpo de trabalho como o acervo de uma escola de faz-de-conta. Diários de classe, manuais de conduta, conversas de corredor se misturam aos móveis, corpos, notas e memórias. Brincar de escola. Brincar na escola. É neste processo que vem produzindo e pesquisando.

 

No pátio do CCSP, instala-se uma lousa pivotante dupla face, que convida o público a escrever, desenhar e comunicar. Porém cria certa impossibilidade caso não tenha outro participante do outro lado. Assim, o trabalho acontece a partir do encontro entre duas pessoas que estão circulando pelo espaço expositivo e que podem ou não se conhecer. Como num recreio, esse lugar é norteado pelas ideias de ação e de pausa. Como ação é o exercício do acordo silencioso entre as partes que se relacionam por cada uma das faces da lousa. Ponto de contato e imaginação, que ultrapassa o quadro e o giz e envolve a tensão entre os corpos. Como pausa, é um demorar-se lúdico na força que reside no jogo. Um tempo de brincadeira, que se suspende e caminha contra a velocidade da sociedade de desempenho atual, que nega tudo o que é vinculativo.
 

O intervalo pode ser onde os alunos experimentam seu tempo e afeto - longe de hostilidades da sala de aula. Deslocado para fora dos muros da escola, acaba por iluminar os aprendizados de um currículo oculto, tirando-os de áreas opacas. Assim, repensa a própria escola e o ambiente escolar. Neste lugar do jogo e da brincadeira, como aprender consigo e com o outro? Será imprescindível estar em apenas um dos lados do muro? bell hooks, no livro “ENSINANDO A TRANSGREDIR A EDUCAÇÃO COMO PRÁTICA DA LIBERDADE”, descreve, no modo de um diário epistêmico, a escola como lugar de liberdade. Partindo do princípio de direitos de construção democrática e espaço de inteligências plurais, entendendo a escola como o lugar de encontros e construção de ferramentas políticas. (Como as escolas poderiam então valorizar homens e mulheres cujos valores a sociedade despreza ativamente? questionamento que o escritor TA-NEHISI COETES faz no livro “ENTRE O MUNDO E EU”). O ambiente escolar talvez seja mais um código de conduta de embranquecimento estético e epistêmico, que afeta decisivamente os corpos das crianças e adolescentes. E por quem ele foi pensado? Para quem e para quê? Quem escreve os seus manuais e códigos? Que imagens ilustram suas cartilhas? Que histórias escolhem contar ou não? Conhecer ou ignorar. Sucumbir ou imaginar. Nas palavras de Virgínia Woolf: o que é a realidade e quem são os seus juízes?
 

Acreditando no ato de acreditar é que inventamos novos horizontes utópicos. Espaços habitados por uma imaginação política para fabularmos outros presentes e futuros. Uma fresta se abre e é preciso cada vez mais perceber o outro pelas suas diferenças. Sem diálogo, a escola se fecha. De um dos lados do muro, Bruno nota talvez uma garantia de mudança ao ver uma nova geração de alunos se movimentando de forma diferente da qual o mesmo experimentou quando jovem. Do outro lado, há provas para que ele desconfie de si. Como garantir uma educação justa e igualitária quando determinados corpos já nascem suspeitos, acusados e condenados? Seja pela experiência ou pela fantasia, intervalo ergue aqui uma parede, abre uma trincheira, se instala entre duas pessoas, mas não nega nenhum dos dois lados. Deles depende em acordo mútuo. Em equilíbrio. Como duas partes de uma mesma realidade. Assim, também aconteceu o processo de escrita desse texto. Em um convite como experiência. Construído, peça a peça, por quatro mãos e duas cabeças - de corpos e histórias distintas.
 

Ao ter acesso a obra “INTERVALO” que será exposta no CCSP, achei interessante pensando na proposta da obra, de convidar o ARTISTA Bruno Novaes a escrever juntxs o texto. Portanto, o texto pensado juntxs é o texto em negrito. Onde o pensamento em conjunto é atravessado em ideias e afetos distintos, como o ambiente escolar, principalmente no momento de intervalo.

 

Fico pensando nas palavras que eu e BRUNO, ou que cada um escolhe para compor o texto em negrito, talvez o ambiente escolar ainda para pessoas brancas é o lugar de fuga e usa palavras como utopia ou fábula, para pensar outros afetos ou futuros.
 

No meu caso, em primeira pessoa, a escola como vivência, não pude fabular ou talvez ter esse momento branco cis, de dialogar ou fantasiar.

 

Compartilho muito de uma passagem do livro “ENTRE O MUNDO E EU” do escritor TANEHISI COETES, onde o mesmo descreve o pensamento ou a escrita branca como, `descobri que palavras vagas e inúteis não estavam separadas de pensamentos vagos e inúteis`. pag 59.
 

O texto em negrito, como a lousa que será esse lugar de encontro, com a obra “INTERVALO”, sujeitxs estarão dispostos a compartilhar cada um de um lado da lousa trazendo seus afetos. Como seria após o ativamente da obra, mudarem de lado e cada um dos sujeitxs ler o que o outro escreveu? Será lindo esse encontro dessa forma também. Deixo um texto escrito por mim em 2020, sobre reflexão do texto em negrito onde eu e BRUNO lançamos algumas perguntas.
 

O ambiente escolar talvez seja mais um código de conduta de embranquecimento estético e epistêmico, que afeta decisivamente os corpos das crianças e adolescentes. E por quem ele foi pensado? Para quem e para quê? Quem escreve os seus manuais e códigos?
 

TIROCÍNIO.
Como dizer que o estado está comprometido com a igualdade perante a lei e educação? Sendo que o estado brancxcis governa pelo medo, pelo ódio e pelo
preconceito e não pela justiça e educação. Portanto, onde a justiça e educação é brancxcis, não temos como dizer que é justa. Ao acontecer dessa forma, pessoas não brancxs e não cis no contexto do brasil já nascem suspeitas, acusadas e condenadas. Sendo que a lei e a educação BRANCXCIS é um sistema de embranquecimento, cárcere, genocídio e epistemicídio.

 

O processo de formação como obra
Guilherme Teixeira, Pepi Lemes, Bruno Novaes e Agrippina Roma Manhattan criam dinâmicas que contrariam a instrumentalização do ensino

Leandro Muniz - Revista Select - out 2020

É recorrente que artistas assumam diferentes funções como forma de subsistência em um setor no qual há cada vez menos políticas públicas e no qual as dinâmicas de mercado são altamente competitivas e desiguais. Em alguns casos, porém, as diversas atuações – como artista, curador, professor etc – também possibilitam explorar as potências dessas práticas e suas contaminações mútuas, como em obras que abordam as questões da educação tal qual matéria ou aulas que se valem da inventividade do fazer artístico, borrando radicalmente os limites entre os dois campos. 

No livro Art School: (Propositions for the 21st Century), organizado pelo escritor Steven Henry Madoff, uma série de relatos, análises de projetos e debates formulam as tensões surgidas a partir do trânsito entre a educação e a produção artística. Como a prática artística e a educativa se retroalimentam e se transformam mutuamente? Em que medida se instrumentalizam e se autonomizam? Os artistas Guilherme Teixeira, Pepi Lemes, Bruno Novaes e Agrippina Roma Manhattan, cada um a seu modo, internalizam as relações entre arte e educação, apropriando-se criticamente das “zonas de contato” entre elas. 

(...)

A crítica da normatização


Cartilhas, diários de classe e outros instrumentos que buscam aferir presença, pontualidade e normalização de corpos são tensionados na obra de Bruno Novaes, que distorce, transtorna ou introduz contranarrativas nos usos desses materiais. Além da crítica às normatizações de gênero, raça e subjetividade imposta aos alunos, seus desenhos e instalações também falam das violências sofridas pelos próprios professores, questionando a estrutura dos sistemas de ensino. 

“Ser professor é uma volta à escola, porque você se vê e lembra das camadas de tempo soterradas na sua experiência e lida com outras formas de violência” diz à seLecT. “O professor oprime o aluno, a direção oprime o professor, os pais oprimem a escola e a forma dos manuais de conduta replica essa dinâmica.”

Novaes produz desenhos que embaralham os gêneros dos manuais de ciências, introduz narrativas afetivas nos diários de ponto ou coleta relatos das violências sofridas por seus colegas professores, apresentando esse arquivo em uma instalação sonora. “Me interessa o currículo oculto, toda essa construção de aprendizados que não são iluminados pelo currículo oficial, como os afetos e os sofrimentos” diz. 

Se a forma final de seus trabalhos em geral é leve, com cores que replicam a paleta rebaixada da arquitetura escolar e figuras esquemáticas que resultam em uma visualidade silenciosa, os conteúdos desses trabalhos são dramáticos, tensos. Os estereótipos de gênero ao longo da educação, por exemplo, são questionados desde as expectativas sobre os professores até a ausência de representação de corpos trans nas cartilhas e manuais. “Como as famílias lidam com os professores homens na educação infantil? Que clichês de maternidade são reproduzidos quando uma mulher lida com as crianças pequenas?”, questiona.

 
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escola de faz-de-conta

Bruno Novaes - Revista Tonel - set 2020

Vou buscar num barril repousado o que decanta dentro. Do lado interno, misturam-se os tempos. Aquele líquido ganha, aos poucos, musculatura, corpo e resistência. E, quando exalado, inebria as conversas. Sentar-se em volta. Lugar de encontro. Entre um gole e outro, aprender. Nos atravessamos. Nossas vozes dobraram. Descobri que eles também moram do lado de trás. Torcem, pintam, descascam. Recolhem as coisas caídas. Ensinam com elas. Buscam rasgar as cortinas e deixar a luz passar. Encontrar outras pessoas que passeiam por lá. Descobrir os nomes dos próximos. Eu posso ter avistado alguns. 

Aviso aquele menino. Cabelo tigela. Shortinho vermelho. Bota marrom. Vivia no fundo da casa. E do quartinho abria uma janela pro quintal. Chão de cimento quebrado. Das fendas nascia um pouco de mato. Escondiam-se ratos. Dentro da edícula, prateleiras que apareciam no deslizar do velho lençol estampado. Amaciantes, sabão em pó. Compras do mercado. Caixa de ferramentas. Uma lousa, uma mesa e duas carteiras. Brincar de escola. Horário de refazer gestos. Imitar professoras. Copiar lições. Matemática no quadro. Lista de chamada nas gavetas. Preencher, escrever, memorizar. Escola de brincar. Lugar da casa que se imagina. Espaço de fabulação. Com o carrinho de feira, inventava os caminhos para chegar. Estacionava na vaga demarcada com giz no chão. Era hora de dar aula. Repetir, repetir, repetir. Até que ficou diferente. Mudaram-se as lousas. As matérias. A disciplina. O trajeto era outro. Eram outros, os móveis. Não se tinham mais os produtos na dispensa. As ferramentas mudaram. As crianças, agora, assistiam às aulas. Participavam. Por espelho ou por esforço, ditavam o ritmo. O rumo. Faziam junto. Davam novos nomes para as coisas. Imaginavam novas coisas. Redescobriam as coisas como se fosse sempre a primeira vez. Brincar na escola. 

Uma risca é traçada. União adulto-criança. Há um fascínio pelo real sem que seja preciso soltar-se da ficção. Uma lacuna se abre para as entrelinhas. Uma luz ilumina os espaços opacos dos corredores. Um som torna presente o canto. As quinas. A memória confunde camadas distintas de tempos. Estudante-professor. O jeito torto de olhar atravessa as paredes e enxerga um currículo oculto. Não-dito. Velado. Inventa-se outros manuais de conduta. Regras de convívio. Novas cartilhas. Reaprender a ler para reensinar camaradas, guris e maricas. Um novo modo de alfabetizar. Um outro jeito para oralizar. Volume a volume, se forma uma coleção de diários de classe. O cotidiano num espaço quadriculado para recontar histórias. Apostilas e mapas reinterpretam o mundo ficcional das imagens. Um corpo de trabalho constrói-se enquanto o corpo se entende docente. Sente-se doce-amargo-doente. Escolhe mostrar as falhas e faíscas nas situações de controle impreciso. Revelar rachaduras e abismos. As incongruências e distâncias entre intenções e gestos. A palavra convertida em caráter e o caráter ficcional da palavra. Queira ou não. Crente ou ateu. As coisas podem ser verdade. E o oposto também é real. Ficção e testemunho de mundo se confundem. Percorre-se um trajeto da autobiografia a um lugar inventado. Do pessoal ao político, do político ao pessoal. Confissões, depoimentos e relatos reforçam o coro. Vozes pueris. Vozes calejadas. Outros juízes da realidade cantam juntos. Desejam conceber o inexistente. Repensar as relações que se dão a partir da escola. Ajudar a olhar e ensinar o que viram. Aquele menino risca o giz no chão e desenha novos caminhos para o carrinho. Tira as botas de couro e a bermuda vermelha. A tigela agora lava o seu rosto e o seu quintal. Recolhe pistas. Traça alguma cartografia. Abre as janelas e encontra os vizinhos. Não deixa de brincar. Joga junto. Constrói o acervo, a documentação e a experiência de uma escola de faz-de-conta que se tenciona entre o potencial criativo e o fingimento em potencial.

As coisas que nos cercam

por Milena Espinoza - Grupo Entre Educação e Arte Contemporânea

Relato do encontro “Brincar de escola, brincar na escola”, com Bruno Novaes, realizado em 6 de julho de 2020

 

Por meio de uma chamada de vídeo, o grupo de pesquisa Entre - Educação e arte contemporânea - do qual faço parte - e outros interessados nos reunimos com o artista e educador Bruno Novaes. O diálogo foi guiado a partir do registro disponível das obras no site do artista. Assim, este texto trará alguns pontos tocados na reunião partindo da produção artística de Bruno e chegando aos relatos e leituras pessoais construídos coletivamente a partir dos trabalhos.

 

Cada participante da reunião se apresentou e comentou sobre sua relação com a escola, seja como estudante, ex-estudante ou professor. Nessa partilha brotaram memórias dos professores mais marcantes, experiências de tormentos que nos inquietaram na escola e críticas à mesma como instituição, questões que Bruno aborda na sua produção artística. Os integrantes do grupo escolheram antecipadamente uma obra do artista por meio de pesquisa em seu site e acredito que pelo fato que todos vivemos a experiência de ser/estar como aluno no espaço escolar, permitiu a identificação e o olhar sensível ao trabalho dele.

 

Trabalhos como Mapa de Sala (2014-2015) e Desenho Livre (2020) me conectam inegavelmente com memórias da escola, as intermináveis fileiras individuais justapostas em linhas paralelas, que centravam a educação no professor, impedindo a interação entre alunos entre si ou mesmo destes com os professores. Característica da metodologia tradicional, a qual sofreu inúmeras transformações, mas ,paradoxalmente continua resistindo ao tempo, sendo um dos modelos mais utilizados pelas escolas no Brasil. Posto que se prova ideal para um sistema em que, para ter acesso a universidade é necessário ter boas colocações nos vestibulares, isso se espelha nos cartazes publicitários das escolas retratado no trabalho aprovado_vestibular_mascara.jpg (2018). Mas será que realmente esse tipo de relação onde o professor é o detentor do conhecimento e os alunos assimilam e memorizam o que foi ensinado por meio de provas e trabalhos valendo nota propicia a aprendizagem ou gera conhecimento e desenvolvimento?

 

Refletindo em uma noção de educação mais ampla, o artista-educador nos comenta que o fazer artístico se deu também junto aos alunos, em uma constante troca com eles, misturando ateliê e sala de aula, o que deu como resultado muitos dos trabalhos expostos.

 

De encontro a esse olhar afetivo em relação à escola, aparecem também outros reflexos da relação, já que nesse labor no ambiente escolar surgem questões de bullying, sexualidade e gênero. As experiências pessoais de quem viveu nesse ambiente quando criança e que passa a reviver aquilo de novo na posição de professor são perceptíveis em trabalhos como Apostila de Ciências: ensino fundamental (2016) e Cartilha (2017-2019).

 

Explorar a instalação sonora Corpo Decente (2018), ouvindo os 50 minutos de áudio que coincidem a duração de uma aula, com os depoimentos de professores que foram censurados e/ou discriminados no ambiente escolar, me leva a reflexão da compreensão do papel da escola e a situação dos integrantes do sistema educativo. O artista recopilou os depoimentos de professores próximos e depois fez uma chamada por redes sociais para acolher um público mais diverso. A partir da própria história de discriminação do artista, a qual se encontra evidenciada no trabalho Jogo dos erros (2018), que consiste em duas versões de um informe de desligamento de uma escola particular, se consegue dar voz a outros professores que também passam situações semelhantes.

 

A produção de Bruno Novaes aborda questões de memória e afeto em maior medida em trabalhos como Diário coletivo de (in)significâncias (2018), uma ação urbana onde Novaes escuta confissões e histórias pessoais de participantes, enquanto vai criando anotações e desenhos que compõem um caderno-diário que depois é exposto; Passagens (2015-2017), garrafas de vidro que contém desenhos, anotações e objetos de viagens, expondo um segredo tornado público onde resta ao observador criar sua própria narrativa a partir dos fragmentos que podem ser vistos; As cartas que não te enviei (2017-2019), cartas para relações platônicas da adolescência que viraram vasos em papel machê e de novo papel em fotografias. Estas obras nos apresentam um novo olhar para as coisas que nos cercam, as histórias das pessoas, as relações que construímos.

 

Existe certa ambiguidade no trabalho de Bruno, trazendo coisas que poderiam ser privadas e íntimas a um espaço público, tratando com um olhar sensível questões ácidas e difíceis de se falar. Finalmente desejo concluir este texto com a frase que está no rodapé de página do site do artista: Sei que sussurro para quem consegue ouvir.

 

Bruno Novaes e os dias de chuva

por Mirtes Marins de Oliveira


Na exposição O professor deverá ser o último a se retirar, mesmo nos dias de chuva (Paço das Artes, 2019), Bruno Novaes propôs um diálogo entre ambiente escolar e alguns conteúdos disciplinadores do campo educacional a partir da evocação da experiência no espaço-escola, a sua própria e aquela que, intui, muitos viveram como alunos e outros como professores.  Atuou como professor por uma década ampliando as brincadeiras de criança, quando na Rua Maceió, em São Caetano do Sul, construía ambientes escolares imaginários. Assim, seu interesse em ensino e aprendizagem em arte é uma constante, corporificado nos trabalhos.

O artista oferece ao visitante envolvimento sensorial e afetivo naquele universo, como por exemplo no trabalho Ensino Confessional (2017-Atual), que solicita a participação na produção de confissões pessoais, inseridas de forma anônima e repetida em caderno de caligrafia e, de forma geral, instalado em carteira típica de salas de aula do século XX. Esse exercício, no qual a maioria dos visitantes participa com empenho e cuidado, mobiliza a memória sobre aquele espaço-escola a partir de suas formas recorrentes, disseminadas pelos processos civilizatórios do século XIX. Os cheiros, sonoridades, mobílias, organização espacial, cores, entre outros elementos, são característicos do formato arquitetônico escolar globalizado, pelo qual quase todo o mundo ocidental pautado pela hegemonia europeia no campo escolar teve contato. Por outro lado, sem dúvida, a articulação histórica da escola brasileira ao passado religioso com finalidade de catequese é provocada nesse mesmo trabalho, criando um ambiente no qual confissão, culpa e penitências estão presentes de forma transitória. O autor investe de forma precisa nestes lugares ambíguos, conectando saber e poder, singelezas e arbitrariedades, civilidades e violências, fragilidades e brutalidades. 

Além disso, cria contrapontos mais contemporâneos e documentais, como em Corpo Decente (2018), instalação sonora com depoimentos de censura ou discriminação aos professores em ambiente forrado com centenas de quilos de giz branco. Nessa relação entre som, estímulos olfativos e conteúdos a narrativa da instalação justapõe a censura aos alunos e professores. 

Historiadores da educação apontam para a expressiva significação do espaço-escola como elemento curricular, fonte de experiência e aprendizagem, um currículo oculto, controlador de movimentos, costumes (VIÑAO FRAGO; ESCOLANO, 2001) e do tempo com seus ritmos próprios, herdados da vida nos conventos. Para os autores, a arquitetura escolar é um discurso que institui na sua materialidade um sistema de valores, como os de ordem, disciplina e vigilância, marcos para a aprendizagem sensorial e motora e toda uma semiologia que cobre diferente símbolos estéticos, culturais e também ideológicos (VIÑAO FRAGO; ESCOLANO, 2001). O debate sobre o espaço tem impacto nos estudos contemporâneos desde a concepção física desdobrada em suas dimensões sociais, políticas, imaginárias e virtuais e o edifício escolar – e seu aparato material, as mobílias e superfícies – relaciona diferentes práticas históricas, superpõe técnicas de controle e experiências diversas dos seus habitantes. Os vestígios dessa vida podem ser captados a partir das provocações de Novaes, que, ao oferecer a materialidade física daqueles espaços, também apresenta a superposição dessas temporalidades para seu observador participante. Não foge ao seu radar a organização formatada e impeditiva da liberdade dos corpos, envolvidos, no ambiente escolar, na burocracia dos espaços e dos tempos, adestradores de obedientes, reguladores para uma vida correta e longe dos desajustes sociais. 

Não é possível tomar contato com esses trabalhos e não verificar as limitações do campo educacional e suas instituições como lugar de reflexão crítica ou ativadora de atitudes comprometidas com justiça social.

No caso específico da exposição, nas séries apresentadas, Novaes tende para a ambiguidade das formas exibidas – cuidadosas, delicadas, nostálgicas -  em confronto com os elementos de opressão daquele ambiente, em particular no que diz respeito às questões de gênero e de orientação sexual, apontando o bullying violento e tradicional que caracteriza a manifestação de preconceitos sociais sobre essas questões. Nesse sentido, Pequenos Legados (2019) apresenta a visualidade nostálgica dos anos escolares de maneira sensível mas que vai fechando o cerco em torno de uma herança material esvaziada de suas funções, ou que se transmutou em outros meios, mas que continua como pano de fundo intimidador do espaço-escola. Na exposição ficava evidente por meio do trabalho Jogo dos Erros (2018), por exemplo, que os sutis e sistemáticos ataques sofridos na infância e na escola, continuavam sob a forma mais perversa da perseguição disfarçada de preocupação: Bruno foi demitido de uma escola porque representava algo perigoso. Resta perguntar para quem.

As condições sociais nas quais a exposição foi inaugurada também leva a refletir sobre as diversas situações nas quais o circuito artístico era, naquele instante, agredido: assim como a definição do que seria educação passava por um esvaziamento simplista, a palavra arte era capturada por um filtro redutor que a pausterizava ao gosto de alguns, cujo pano de fundo parece ser uma estereotipada e generalizante noção de tradição artística pré-moderna. Nos dias atuais, no Brasil, esse constrangimento parece tomar conta do espectro não só da cultura, mas a todas as dimensões da vida. 

Há no conjunto de obras de Novaes uma outra evocação do ambiente educacional, a presença e importância da palavra, que designa, restringe mas amplia o mundo. Muito atento à sua potência a partir de seu uso, o artista identifica sua violência, demonstra as contradições presentes nos enunciados e como a palavra serve, também para a denúncia, reflexão e ação. Novaes é também cantor e o interesse na palavra esteve sempre presente: as modulações, extensões, sonoridades surgem nas instalações e como desenhos. Afirma: a palavra chega antes da imagem no processo criativo, como som, elemento gráfico, designações. Exemplares, nesse sentido é o conjunto denominado Manual de Conduta de Corpo Docente (2018), no qual textos e imagens sutis vão, a partir de processos de corroboração e contradição, construindo ou reconstruindo um cenário de pressão e violência explícitas.

 


Referência
VIÑAO FRAGO, Antonio; ESCOLANO, Agustín. Currículo, espaço e subjetividade: a arquitetura como programa.

Tradução: Alfredo Veiga-Neto. 2. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2001. 152 p. 

 

Entrevista com Bruno Novaes por Mirtes Marins de Oliveira

para a exposição O professor deverá ser o último a se retirar, mesmo nos dias de chuva - Temporada de Projetos - Paço das Artes - 2019

Inicio perguntando sobre a origem de suas práticas artísticas. Parte da relevância dos trabalhos que realiza reside nos problemas que coloca diante de uma realidade social e política cada vez mais tensa a respeito das questões de sexualidade e gênero no ambiente escolar e na compreensão do papel da escola e da educação. Como você localiza sua produção nesse contexto?

 

Bem, percebo alguns pontos de origem na minha prática. A começar pela palavra que sempre foi importante para mim e para a qual há uma relação anterior mesmo da minha produção em artes visuais. Como cantor, a palavra já era meu interesse. Minha monografia na pós graduação, inclusive, foi a respeito da palavra na canção popular brasileira. Acho importante dizer isso, porque acredito que seja desse lugar que parto muitas vezes. Em quase todos os trabalhos a palavra chega antes da imagem para mim no processo criativo. Seja como som, como elemento gráfico, como título. Me graduei em Design, e apesar de nunca ter trabalho como designer, noto também que existe o olhar naquilo que faço de quem se inclinou para o assunto. Fiz minha licenciatura em Arte e fui parar na escola. No ambiente escolar fiquei por uma década. Estar ali era, de alguma forma, voltar à minha brincadeira favorita de infância: a escolinha no fundo da casa da rua Maceió, ambiente equipado com lousa e carteiras de verdade, já que meu avô era marceneiro. Acredito que este seja outro lugar de origem pra mim. Com o passar do tempo, depois de assumir minha produção visual, é que consigo ver que esses pontos se confundem e se cruzam. São como matrizes adormecidas, que de vez em quando pulsam e trocam de lugares.

 

Sobre o contexto da educação, nos últimos anos, o fazer artístico se deu também junto aos alunos, de forma relacional, misturando ateliê e sala de aula, caminhando para uma noção de educação mais ampla. Isso é equivalente também na exposição, quando o público participa. É educativo mesmo fora dos muros da escola. Me interessa esse lugar entre arte e educação. Produzir dentro e fora de sala de aula enquanto o cenário brasileiro foi se tensionando, naturalmente também me afetou. Sala de aula, vida e trabalho, se misturam. E por esse corpo também passam as questões de sexualidade que você comenta. Há uma relação entre o que vi ali depois que voltei para aquele ambiente, já adulto, e o que passei naquele lugar quando criança e adolescente: piadas, opressão, o crescer ali dentro. Isso não foi e nem é só meu, mas estar ali como professor e viver aquilo de novo, faz com que meu trabalho toque nessas questões. Gosto desse lugar de quem observa a vida ao redor, silenciosamente. Coisas que poderiam ser privadas e íntimas, se confundem e tomam espaço público, termos, documentos, protocolos da escola ganham outros significados.

Peço que você relate, na medida do possível e de seu interesse, a questão de seu desligamento de uma escola particular que resultou nos documentos expostos na mostra. Por que decidiu transformar esse informe – seu desligamento - em obra?

 

Pela troca e relação que eu tinha com aqueles alunos, nessa escola, durante seis anos intensos, produzindo junto com eles muitos dos meus trabalhos. Essa​ mistura de vida pessoal e trabalho, essa mistura que está presente na minha produção, de certa forma é também responsável pela ruptura. Mas o que me assustou foi a maneira conturbada e preconceituosa desse desligamento, além de silenciosa e velada. Acho que o silêncio é o que mais incomodou. Depois de um tempo para digerir é que as ideias chegaram. Entender o que aconteceu, porquê e para quê, algo que ocorre também com outros professores, e poder dar voz a essas vozes.

 

Como professor que também é artista, ou artista que também é professor, você verifica diferenças em termos de recepção dos públicos? É necessário estar na condição de aluno para uma compreensão mais sensível de seu trabalho? Você percebe diferenças nessa recepção?

 

Como quase todo o público é ou já foi aluno, o resgate é realizado pela memória e cada geração acaba tendo a sua percepção de acordo com o tipo de escola que viveu. Há também quem se coloca no lugar do professor, ou professores que se percebem novamente professores ali.

 

A escola que você evoca nas instalações, desenhos, objetos parece não existir mais, principalmente porque as recobre de um olhar sensível e amoroso. Você poderia falar das origens de seu trabalho e se existe de fato essa perspectiva? Claro que alguns trabalhos são comentários muito ácidos sobre a questão do bullying e dos preconceitos presentes no ambiente escolar, mas verifico uma ambiguidade nesse tópico.

Totalmente. Essa ambiguidade me interessa. Não acho que somente gritando é possível de ser ouvido, gosto das sutilezas, do sussurro. Me interessa essa amorosidade para falar de questões ácidas e difíceis. Talvez esse olhar sensível esteja associado ao fazer naquele espaço, de estar verdadeiramente presente nele e das relações que construí ali. Há alguns anos, esse lugar não existe mais para mim. Hoje essas escolas acabam sendo semente que ajudam a recuperar a memória do primeiro espaço escolar, a escolinha nos fundos da casa. E memórias podem se confundir, idealizadas ou romantizadas. Pode ser que eu esteja de novo brincando de escolinha. Ou que nunca deixei de brincar.

 

Entrevista para o Arte Londrina 7

 

O artista Bruno Novaes também respondeu algumas perguntas feitas pela DaP. Ele reside em São Bernardo do Campo – SP e participa da 1ª exposição ARTE LONDRINA 7 – MELHOR SER FILHO DA OUTRA.


COMO UM TRABALHO COMEÇA?


Quase sempre pela palavra. Seja como título, como elemento gráfico, como poesia. E de alguma maneira eu preciso viver aquilo para que ele possa nascer. Sempre está relacionado à minha própria vida, mesmo quando carregado de ficções e camadas inventadas ou transformadas.
 

QUE ARTISTAS OU TEÓRICOS VOCÊ CONSIDERA IMPORTANTES? POR QUÊ?


Me interesso por diferentes frentes da arte. Gosto da Sophie Calle, Leonilson, Felix Gonzalez Torres, por exemplo. Mas também por Maria Bethânia, Cazuza, Chico, Caetano, Caio Fernando Abreu, Guimarães Rosa.
 

O QUE VOCÊ ESTÁ LENDO?


Li recentemente Nú de Botas, do Antonio Prata, que foi uma experiência deliciosa e afetiva de voltar à minha infância. Reconheço que ali tem uma semente da última série que pintei: Pequenos Legados.
 

QUE TIPO DE COISA CHAMA SUA ATENÇÃO NO MUNDO?


As histórias das pessoas. A infância, a adolescência. As relações que construimos. Nossos códigos, protocolos, atividades sociais, dentro e fora da escola. Gosto de observar de modo silencioso o que está ao meu redor e trazer isso a público, de alguma forma.
 

O QUE VOCÊ ESTÁ PRODUZINDO AGORA?


Terminei agora uma série em que resgato minha brincadeira de infância favorita. A escolinha que eu tinha no fundo da casa dos meus pais e que venho revisitando para que dê em trabalhos. Pintei algumas aquarelas sobre aquele brincar, os objetos envolvidos ali naquele quarto, na escola propriamente dita enquanto aluno, pensando também nas relações possíveis com os dias de hoje e com minha própria atividade como professor no presente.
 

QUE SITES VOCÊ COSTUMA ACESSAR?


Gosto de ler o que os pesquisadores do Arteversa (UFRGS) escrevem. É um ótimo canal que fricciona Arte e Educação.
 
QUE MÚSICA VOCÊ OUVE?
Música brasileira. Maria Bethânia, Chico, Caetano, Noel, Adriana Calcanhoto, Filippe Catto, Diego Moraes, entre tantos outros que vou descobrindo.
 

QUE EXPERIÊNCIA COM ARTE FOI IMPORTANTE PARA VOCÊ?


Me lembro quando adolescente que vi pela primeira vez a Ópera do Malandro no teatro. Ali sem dúvida foi uma experiência inesquecível tanto é que sempre cito quando me perguntam sobre o assunto. Mais adulto, as duas últimas exposições que vi do Leonilson mexeram muito comigo.


NO TRABALHO APRESENTADO, CAMINHO SUAVE (2018) COMO SE ESTABELECE A RELAÇÃO ENTRE IMAGEM E TEXTO?


Aquele trabalho parte do livro que lancei em 2018, Alugo para rapazes. Este livro registra diversos encontros que tive por meio de aplicativos. Fiquei um ano me encontrando com vários caras e de cada encontro surgia um poema e um desenho de algum objeto sobre aquele cara ou o lugar em que estávamos. Os poemas que lidavam mais com o corpo eu usei para desdobrar no Caminho Suave. A imagem é o objeto que está representando o encontro e a palavra é retirada do poema correspondente.

 

Julia Lima

para a exposição Capítulo2: O professor deverá ser o último a se retirar, mesmo nos dias de chuva

Casa do Olhar Luiz Sacilotto - Santo André - 2018

Sabemos que a escola pode ser um espaço de fomento à criatividade, às descobertas, à experimentação e à expansão dos saberes, mas é igualmente verdade que ela também pode ser um lugar de controle, de endurecimento e de repressão. Essas forças antagônicas que operam no ambiente escolar não se manifestam apenas na vivência dos alunos – hoje elas são presentes, com idêntica intensidade, na atuação dos professores, na vigilância implacável de cada palavra, cada ação e cada aula.

 

No nosso tempo, o livre pensar se vê crescentemente circunscrito: escolas sem partido estão repletas de religião; discussões e materiais didáticos sobre diversidade sexual são desonestamente chamados de doutrinação; e disciplinas que poderiam ampliar os horizontes, promover o questionamento, e alimentar a criatividade e singularidade são o mais recente alvo do desmonte sistemático do ensino. Em meio a esse contexto trágico, não há postura mais radical do que enfrentar esse sistema de forma independente – seja como professor, seja como artista. 

 

Nesta exposição encontramos trabalhos que se ancoram numa linha tênue e borrada entre essas duas formas de agir no mundo. Bruno Novaes atuou como professor de arte por vários anos em escolas particulares, lidando com alunos do Ensino Fundamental e Médio. Em paralelo, vem desenvolvendo uma pesquisa artística própria, uma produção pautada no desenho, aquarela, escrita, e em suportes tridimensionais como objetos e instalações. No entanto, essas duas ocupações sempre se confundiram e se contaminaram: seus trabalhos são construídos a partir de vivências pessoais, tanto quanto de apropriações das experiências em sala de aula – inclusive realizando trabalhos em colaboração com seus alunos.

 

Contudo, houve um momento em que essas duas vidas não puderam mais coexistir, em um choque irreconciliável entre a esfera privada e a figura pública do docente. Esta exposição é, assim, como um segundo capítulo na grande narrativa da pesquisa do artista: a primeira parte apresentada sob o viés das relações pessoais, “Capítulo 1: O corpo mente menos que as palavras”, explorava desenhos e aquarelas sobre encontros românticos e experiências sociais; agora, sob a perspectiva da colisão dessa dimensão com a persona do professor, Novaes traz trabalhos inéditos que refletem sobre o papel da escola, do aluno, do mestre e da arte na rede de produção de significados em que todos nós estamos inseridos. Por meio de brincadeiras, simulacros, provocações e resgates históricos, o artista nos convida a pensar sobre todas as regras invisíveis ou disfarçadas que formatam o ensino no Brasil, revelando as rachaduras, abismos e falências que permeiam todo o sistema. Diante desse cenário, deve mesmo o professor ser o último a se retirar?

 

Julia Lima

para a exposição Capítulo1: O corpo mente menos que as palavras Oma Galeria - São Bernardo do Campo - 2018

Talvez longe, em Júpiter, eu consiga escrever sobre você. Agora só é possível falar para você, com você, que se expõe inteiro em um diário, derrama todos os fluidos íntimos ali nas páginas amareladas e rabisca sem pudor o retrato de cada encontro, de cada toque, de cada membro. Eu, tão aberta, tão falante, não consigo me oferecer assim e você, tão tímido e contido, revela-se no papel mais do que eu jamais pude contar. Eu não sei contar vantagens, a transparência sempre foi a fragilidade daqueles que se apegam ao tamanho real das coisas e não há poesia alguma nisso. Outro dia aprendi que a criatividade é energia masculina, e não feminina – o feminino não cria, e sim gesta, incuba, nutre e fomenta. Você faz da sua vida sua matéria, do seu corpo seu instrumento, seu corpo a carne que alimenta toda criação. Falsa é a carne, você diz, entre tantos outros versos que às vezes me faziam corar, e outras várias balançar a cabeça pensando ele entendeu tudo, tudo. E se a carne é falsa, mas o corpo mente menos que as palavras, como sabemos o que é o real? No princípio era o verbo! E a verdade é que a linguagem importa, as palavras querem dizer algo, mas dissimuladamente carregam significados que não são os que queremos imprimir, não explicitamente. A precisão da linguagem é um jogo perigoso e os nomes das coisas podem nos enganar, nossos vícios e inflexões criando zonas movediças de ambiguidade e ruído. As palavras não são suficientes para ti, que insiste em retratar coisas íntimas como efígie, que caminha na fina linha entre imagem e discurso, entre objeto e signo, criando uma terceira margem semiótica onde só a sua vivência é capaz de completar os sentidos. Como você chama mesmo? O seu nome se confunde com os nomes anônimos que você, durante um ano inteiro, sucessivamente descobria nos aplicativos afetivos com um apetite de presença e desfastio que imediatamente se materializava em companhia; em seguida, voltava ao buraco vazio apenas para, num novo dia, se preencher com um diferente alguém. Esses encontros se tornaram ilustrações e versos, que por sua vez se tornaram livro, que por sua vez se tornou aquarela e desenho, transbordando até onde se vê aqui. De um lado, palavras não correspondem às figuras, são estranhamente separadas em sílabas coloridas – os impasses da linguagem nos atravessam, mas há algo mais desconcertante ali na distância entre a língua e a bola. O apelo infantil do controle de videogame, do compasso e da mochila inusitadamente se choca à sensualidade dos vocábulos que balbuciamos pausadamente entre uma cor e outra. É como se estivéssemos aprendendo a ler de novo ou decifrando pequenos enigmas que não tem resposta certa. Do outro lado, delicadas aquarelas convivem com escritos quase imperceptíveis, informações objetivas de geo-localização que nos revelam as coordenadas de latitude e longitude para cada objeto. Querido, o mundo é exato, mas o ser humano não, é impossível organizar de forma cartesiana a experiência que você diligentemente documentou por um ano inteiro nas páginas do seu diário (que agora pode ser comprado por qualquer um, que coragem). O artista procura no que faz algo de si, precisa reconhecer-se. Escrevendo agora, seus trabalhos me fizeram lembrar de como o mito de Narciso é uma imagem fundadora para a psicanálise, mas também para a arte – o belo jovem está amaldiçoado a ver-se e não enxergar nada mais, e a ninfa apaixonada por ele está fadada a apenas repetir as últimas palavras que escuta. O fascínio com a imagem e a obsessão com a palavra são apresentados lado a lado, a imagem de si que parece do outro, a voz do outro que volta como minha própria. Conhecer a si mesmo e ao outro é de uma potência tremenda, e eu já esqueci do tempo que não te conhecia. Te falo agora em primeira pessoa porque, por sorte, não sofremos de transtornos narcísicos, conseguimos buscar o que há de mim em você e o que há de você em mim – desde que não nos afoguemos nos nossos reflexos e que aprendamos a escutar mais profundamente do que apenas repetir o que nos é dito. Na tragédia clássica, Narciso se torna flor, Eco se torna pedra, objetos como os que você tão afetivamente representa. Queria saber qual seria o objeto que simbolizaria meu retrato, talvez você me conte numa resposta a essa carta ou com um novo trabalho, meia vida depois. Eu, como você, queria ter um amigo, mas encontrei um artista.

 
 

Segredos aprisionados em garrafas de ar

por Juan Casemiro

no contexto da exposição de Passagens no Memorial da América Latina/SP - 2015

Bruno Novaes aprisiona dentro de dez garrafas, desenhos feitos sobre passagens de trem, fotocópias de anotações, fragmentos de um caderno de artista e por fim um cadeado. Um trabalho de colecionador que, ao guardar estes “restos” produz uma espécie de contra-monumento. Colocado aqui no sentido de que esta obra se opõe à monumentalidade, a maior garrafa mede 31 centímetros. Um contra-monumento também por não se impor fisicamente ao solo e tampouco datar-se como uma coisa terminada. As garrafas são soltas, permitem ao artista a liberdade de criar novos arranjos para cada lugar em que ela for montada.

 

A instalação funciona como um princípio de montagem, onde ao aprisionar os desenhos em garrafas transparentes se permite que aquelas memórias (passado) sejam vistas e ressignificadas (presente) por quem as contempla. Passagens, trabalho acabado ou inacabado, garrafa aberta ou fechada, sugere uma nova forma de ler e interpretar um passado, um amontoado de memórias, tomando por material seus cacos. Bruno faz um trabalho de colecionador das suas próprias lembranças, em que trechos da história foram interrompidos e condensados na superfície de papéis. Aqui, genuinamente, a história é escrita a partir das imagens que, via de regra, pertenceram a um dado momento da vida do artista e agora se coloca como narrativa perdida. Não há começo nem fim. Passagens sugere este caminhar desregrado por entre garrafas de memória.

 

São desenhos como relatos de um flâneur que percorreu a Paris contemporânea em contraste com a que Benjamin descreve. E depois guardou estes olhares em garrafas, tapando-as com rolhas, talvez na tentativa de conservá-los. Passagens também pretende que as imagens sejam a sua própria dimensão temporal: estão situadas dentro de um corpus espaço-tempo, e já não se manifestam em seu estado bruto, mas como cacos de uma história. Os desenhos se encontram rasgados, algumas passagens de trem estão sobrepostas, e a obra se apresenta como este emaranhado de papéis que o artista produziu em diferentes épocas. Um colecionador. E estando nesta condição, Bruno aprisiona esta coleção e a torna pública, mas que permanece em segredo. Sua obra consiste em expor um segredo tornado público, e colocado em estado de conserva. Resta ao observador criar sua própria narrativa a partir dos fragmentos que podem ser vistos. Em voz baixa: o trabalho de escolher em quais garrafas os desenhos iriam ficar se assemelha ao pingar da chuva dentro das garrafas no filme de Tarkovsky. Com a diferença que a água evapora e deixa apenas uma quase-marca na superfície, e na instalação de Bruno Novaes eles permanecem como se na verdade ali houvessem vidros de loção prontos a evaporarem quando alguém, por um descuido, retirasse a rolha.