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Talvez longe, em Júpiter, eu consiga escrever sobre você. Agora só é possível falar para você, com você, que se expõe inteiro em um diário, derrama todos os fluidos íntimos ali nas páginas amareladas e rabisca sem pudor o retrato de cada encontro, de cada toque, de cada membro. Eu, tão aberta, tão falante, não consigo me oferecer assim e você, tão tímido e contido, revela-se no papel mais do que eu jamais pude contar. Eu não sei contar vantagens, a transparência sempre foi a fragilidade daqueles que se apegam ao tamanho real das coisas e não há poesia alguma nisso. Outro dia aprendi que a criatividade é energia masculina, e não feminina – o feminino não cria, e sim gesta, incuba, nutre e fomenta. Você faz da sua vida sua matéria, do seu corpo seu instrumento, seu corpo a carne que alimenta toda criação. Falsa é a carne, você diz, entre tantos outros versos que às vezes me faziam corar, e outras várias balançar a cabeça pensando ele entendeu tudo, tudo. E se a carne é falsa, mas o corpo mente menos que as palavras, como sabemos o que é o real? No princípio era o verbo! E a verdade é que a linguagem importa, as palavras querem dizer algo, mas dissimuladamente carregam significados que não são os que queremos imprimir, não explicitamente. A precisão da linguagem é um jogo perigoso e os nomes das coisas podem nos enganar, nossos vícios e inflexões criando zonas movediças de ambiguidade e ruído. As palavras não são suficientes para ti, que insiste em retratar coisas íntimas como efígie, que caminha na fina linha entre imagem e discurso, entre objeto e signo, criando uma terceira margem semiótica onde só a sua vivência é capaz de completar os sentidos. Como você chama mesmo? O seu nome se confunde com os nomes anônimos que você, durante um ano inteiro, sucessivamente descobria nos aplicativos afetivos com um apetite de presença e desfastio que imediatamente se materializava em companhia; em seguida, voltava ao buraco vazio apenas para, num novo dia, se preencher com um diferente alguém. Esses encontros se tornaram ilustrações e versos, que por sua vez se tornaram livro, que por sua vez se tornou aquarela e desenho, transbordando até onde se vê aqui. De um lado, palavras não correspondem às figuras, são estranhamente separadas em sílabas coloridas – os impasses da linguagem nos atravessam, mas há algo mais desconcertante ali na distância entre a língua e a bola. O apelo infantil do controle de videogame, do compasso e da mochila inusitadamente se choca à sensualidade dos vocábulos que balbuciamos pausadamente entre uma cor e outra. É como se estivéssemos aprendendo a ler de novo ou decifrando pequenos enigmas que não tem resposta certa. Do outro lado, delicadas aquarelas convivem com escritos quase imperceptíveis, informações objetivas de geo-localização que nos revelam as coordenadas de latitude e longitude para cada objeto. Querido, o mundo é exato, mas o ser humano não, é impossível organizar de forma cartesiana a experiência que você diligentemente documentou por um ano inteiro nas páginas do seu diário (que agora pode ser comprado por qualquer um, que coragem). O artista procura no que faz algo de si, precisa reconhecer-se. Escrevendo agora, seus trabalhos me fizeram lembrar de como o mito de Narciso é uma imagem fundadora para a psicanálise, mas também para a arte – o belo jovem está amaldiçoado a ver-se e não enxergar nada mais, e a ninfa apaixonada por ele está fadada a apenas repetir as últimas palavras que escuta. O fascínio com a imagem e a obsessão com a palavra são apresentados lado a lado, a imagem de si que parece do outro, a voz do outro que volta como minha própria. Conhecer a si mesmo e ao outro é de uma potência tremenda, e eu já esqueci do tempo que não te conhecia. Te falo agora em primeira pessoa porque, por sorte, não sofremos de transtornos narcísicos, conseguimos buscar o que há de mim em você e o que há de você em mim – desde que não nos afoguemos nos nossos reflexos e que aprendamos a escutar mais profundamente do que apenas repetir o que nos é dito. Na tragédia clássica, Narciso se torna flor, Eco se torna pedra, objetos como os que você tão afetivamente representa. Queria saber qual seria o objeto que simbolizaria meu retrato, talvez você me conte numa resposta a essa carta ou com um novo trabalho, meia vida depois. Eu, como você, queria ter um amigo, mas encontrei um artista.

 

Julia Lima

Para a exposição Capítulo1: O corpo mente menos que as palavras

na Oma Galeria/SP - 2018

Caminho Suave

2018

Lápis aquarelável sobre papel

36 desenhos

 22x33cm cada

Alugo para rapazes

2018

Aquarela sobre papel algodão

18 aquarelas

16x24cm cada

Alugo para rapazes

2015-2016

Nanquim sobre papel

Livro de poemas e desenhos construído a partir de encontros íntimos marcados por aplicativos de celular

24x16cm

Apresentação: 30x50cm

publicado pela editora

Lamparina Luminosa em 2018

ISBN 978-85-64107-40-3

250 exemplares
impressão laser em papel polen 90g e capa kraft 250g

156 p.

21x14cm