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exposição

/idealização

Bruno Novaes

/concepção expográfica

Bruno Novaes

Julia Lima

Marília Scarabello

/concepção educativa

Amanda Tavares

Ana Helena Grimaldi

Bruno Novaes

/monitoria educativa

Marina da Silva

/concepção gráfica

Vinicius Reis

Diário 366

2016-2020

 

366 páginas de 21x15cm aprox. expostas linearmente em ripas de pinho

 

278 objetos recebidos de tamanhos variados dispostos em 9 portas de pinho de  210x90cm cada

Calendário de controle

das devolutivas

2017-2021

aquarela, grafite e carimbo

sobre papel

75x150cm

Quantas histórias cabem num ano?desde 2021

proposição ao público

grafite, lápis de cor e caneta hidrográfica sobre postais

concepção conjunta com Amanda Tavares e Ana Helena Grimaldi

atualmente com 150 postais

Modos de contar o tempo
 

A cada ano, calendários, diários e agendas tem as suas páginas preenchidas com registros e documentações dos dias. Os diários, mais especificamente, são retratos não só dos fatos banais – e dos ocasionais eventos excepcionais –, mas também fiéis depositários de profundas confissões, afetos e angústias, das impressões e dos desejos íntimos de alguém. Cada entrada configura um relato híbrido entre fato e percepção, veracidade e ficção, revelando de maneira premente (e não-mediada) o ponto de vista do autor. Sua natureza intimista, confessional, e até sigilosa, talvez seja também um pouco narcisista, já que estrutura-se em primeira pessoa; sua linguagem principal é a escrita; e sua fruição é, quase sempre, destinada apenas a quem o escreve – uma narrativa sem filtro e sem necessidade de edição, aproximada da carne da vivência individual. É, ao mesmo tempo, a materialização de muitas vozes internas que, em público, silenciamos em favor da boa convivência, da civilidade e da educação, mas que podem ser livremente derramadas no papel sem medo das contradições, incoerências e, quiçá, ilusões inerentes à perspectiva de ponto singular. Assim, ler um diário alheio pode ser o mais próximo que podemos chegar de ver o mundo pelos olhos de outra pessoa.


No ano bissexto de 2016, Bruno Novaes se propôs a construir um diário à sua maneira, registrando diariamente a data corrente por meio de desenhos, aquarelas, fotografias, colagens, costuras ou intervenções que experimentassem com o formato e o papel. Fugindo da convencional escrita confessional, realizou um exercício poético-simbólico de anotação diurnal por meio de imagens, explorando noções e interpretações ampliadas do diário como ferramenta do conhecimento de si (e, mais tarde, do outro). Ao concluir esse processo, digitalizou todas as páginas produzidas e transformou-as em cartões postais impressos – uma coleção de 366 fichas diferentes. Essa operação configurou-se como uma primeira subversão: o artista converteu seu diário pessoal em algo cuja função primordial é circular abertamente entre pessoas. Mesmo que o postal se preste também à escrita, não estamos mais lidando com uma esfera confidencial, e sim uma dimensão pública – sem envelopes, postais circulam sendo lidos livremente por qualquer um que os manipule.


É a partir dessa condição dialógica do material postal que Novaes, então, passou a realizar um extenso processo de trocas e construção coletiva que perverteu ainda mais o intimismo e o sigilo em favor de uma esfera compartilhada. Durante os quatro anos seguintes (entre 2017 e 2020), pela internet, operou uma espécie de escambo: quem desejasse participar do projeto, elegia uma data e, se disponível, recebia pelo correio o postal referente àquele dia, sem saber o conteúdo da imagem. Em troca, uma vez que recebesse o cartão, enviava de volta uma resposta relativa à sua escolha. Movidos por associações afetivas, por feriados e datas comemorativas, por eventos políticos relevantes ou predileções aleatórias, os participantes passaram a integrar uma rede pública de transações íntimas, uma cadeia ampla e espontânea de confidências entre conhecidos e desconhecidos. As respostas vieram nos mais variados formatos: centenas de textos, cartas, bilhetes, fotografias, desenhos, objetos e peças foram remetidos ao artista até o final de 2020 (também bissexto), quando as trocas se encerraram.


Com todo este acervo acumulado, a última etapa do projeto consistiu na organização desta exposição na qual se exibem todas as páginas originais do diário, dispostas a formar um grande calendário, junto de todas as devolutivas de quem se envolveu nesse intercâmbio. Incidentalmente, porém, a mostra também foi ressignificada ao ser realizada hoje, em meio à pandemia, depois de mais de um ano de vais-e-vens de isolamento, restrição e quarentena, que mudaram tanto a nossa relação com o calendário. De um ano para cá, os dias e as horas parecem-se uns com os outros, sempre os mesmos, enquanto também passam demasiadamente acelerados, e o tempo nos escapa.


Assim, abrem-se aqui todas páginas do que um dia foi o ano de 2016 na vida de Bruno Novaes, agora acompanhadas por este acervo coletivo construído por muitas pessoas, muitas histórias e muitos lugares. O conjunto se apresenta como uma versão dupla e ampliada do diário, contando a história de um passado ano de um dia a mais, em um ano no qual os dias parecem não passar.


Julia Lima, abril de 2021

livro

/concepção

Bruno Novaes

/projeto gráfico

Vinicius Reis

/fotografias

Bruno Novaes

Filipe Berndt (calendário)

Gabriel Caixeta (minibio)

/textos

Julia Lima

Fabiana Bruno

/produção executiva

Paradoxa Cultural

Diário 3662021

impressão laser sobre papel ofsete 90g e capa cartão 250-g

200 exemplares

23x16cm

+ encarte calendário impressão laser sobre papel ofsete 90g - 40x80cm

+ 6 desenhos em grafite sobre cartão postal para edição especial

premiado pelo PROAC LAB 2020 Paradoxa Cultural

Os mundos das coisas e as coisas do mundo

por Fabiana Bruno

posfácio do livro Diário 366 - 2021

“Todas as imagens vão desaparecer”, escreve a escritora francesa Annie Ernaux em Os anos, uma autobiografia que mescla o registro pessoal à chamada grande História. 

“...as imagens reais ou imaginárias, que permanecem conosco durante o sono

as imagens de um único instante tocadas por uma luz que só pertence a elas

Vão se acabar todas de uma só vez, assim como milhares de imagens que estavam na cabeça dos avós mortos há meio século e dos pais também mortos (...) E, um dia, nós estaremos na lembrança de nossos filhos no meio de netos e de gente que ainda não nasceu. Assim como o desejo sexual, a memória nunca se interrompe. Ela equipara mortos e vivos, pessoas reais e imaginárias, sonho e história (...)”.

Existir, dá relevo a autora, “é beber sem estar com sede. 

o que você estava fazendo no dia 11 de setembro de 2001?”

Diário 366 é um projeto de criação artística e relacional que se consolida no abismo fascinante dos diários, das complexidades das produções autobiográficas e das interrogações sobre o fazer das histórias por apagamentos e desaparições. Não se trata apenas de um projeto pessoal, mas de uma mescla de como os dias de cada um de nós podem tocar uma certa história, que não é mais apenas a nossa.
O mecanismo do trabalho deste livro segue a montagem das respigas coletadas no dia-a-dia de um ano bissexto como um calendário-tabuleiro de coisas e dias. A criação de um diário por Bruno Novaes, quando lançada à deriva de convites distribuídos via rede social, transgride as imagens de um diário pessoal, acumulando outras espessuras a um acervo de experiências sobre os dias de muitos outros participantes.  
Em Diário 366 somos lembrados de que inventamos não apenas pessoalmente, mas coletivamente, os dias em nossa vida.  Sobretudo, somos instigados a olhar sobre os dias que falham, desaparecem das páginas e do calendário, e que, portanto, parecem ter deixado de existir na nossa história como história. Dias vazios.


Então, a que se destinaria um diário que dá relevo aos dias vazios? Diário 366, que tem efetivamente um dia que nem sempre existirá nos calendários gregorianos, o 29 de fevereiro, se aproxima mais de um quase-diário. Bruno Novaes se ocupou de colecionar coisas, textos, cartas, imagens ao longo de 366 dias, mas preencheu o gride desse calendário com 86 vazios e 37 extravios. Cento e vinte três dias não ocupados por coisas e imagens nos perturbam como faltas e incompletudes ao mesmo tempo que abrem espaço, deixam brechas, para desejar e imaginar. Lá onde há falhas, há espaço para a invenção.
O trabalho artístico apodera-se dessas lacunas dos dias vazios e dos extravios das coisas como potências de um devir. Escancara carimbos e marcações gráficas para essas ausências presentes como territórios desejosos e convites para imaginar. Dias vazios, o que existencialmente eles podem ser? Dias vazios, o que eles podem ser para a história? 

Os resultados poéticos dos vazios e extravios de Diário 366 espraiados nas páginas deste livro-quase-diário entrelaçam-se às heranças de 243 coisas-migrantes chegadas com “sucesso” dessas coletas, pós envios postais, confiados ao método da deriva. As 243 coisas recebidas na troca dos postais – e que um dia foram páginas de um diário pessoal – mostram-se como um “pequeno arquivo coletivo de coisas e dias ordinários”. Objetos que viajaram, migraram e insistiram nesse deslocamento espacial e temporal perpassam de uma vida, daquilo que foram um dia, para se tornarem outras coisas emergentes, pulsantes e carregadas de desejos e memórias. 


As coletas dispostas nas páginas desse livro, no calendário ou ainda na mesa de montagem da exposição, nos remetem a outros projetos admiráveis como o Museu da Inocência, idealizado pelo escritor turco Orhan Pamuk, que não apenas rendeu uma fabulosa catalogação não-classificatória, mas fez nascer potências narrativas na forma de romance escrito para o seu livro homônimo ao projeto do museu.


É assim também que a força poética e estética de Diário 366 desdobra-se em outras potências imaginativas. Os silêncios das coisas rompidos pelas fabulações que passamos a construir de um quadro a outro do calendário, de uma página a outra deste livro, transbordam os dias meramente ordinários e impulsionam enredos, vidas e histórias. Fazem dobrar dias esquecidos em abismos de memórias. Fazem dobrar dias em imagens, que como tais desaparecerão, restando sopros de desejos e reaparições

São Paulo, 02/03/2021, 23h52

prefácio para o livro Diário 366

por Julia Lima

Hoje acordei cansada. Passeei com o Ziggy, que não come direito há uns dias mas roeu alguns dos meus livros mais queridos. O bom é que não consigo ficar brava com aquela carinha. De volta em casa, percebi o quanto ando desorganizada - preciso ter mais disciplina! Sem muita comida na geladeira, pulei o café da manhã, como tenho feito ultimamente. O engraçado é que eu sinto falta, mas não sei muito como resolver esse dilema. Fiz análise no meio do dia, e chorei pela angústia e medo de não dar conta de tudo. Às vezes a gente fica inundada e afogada pela vida. De tarde, dormi um pouco, acho que meu corpo estava pedindo. Trabalhei algumas horas, já que ontem comecei um novo trabalho e preciso dividir bem o dia. Desconfio que vai demorar umas semanas para me acostumar ao ritmo mais fixo e estável de um emprego. Depois, sentei pra terminar o prefácio do “Diário 366”, mas não consegui, porque sabia que logo ia dar aula, e minha cabeça estava dividida. Aliás, as aulas de terça me alimentam demais e me dão um propósito imenso na vida. É precioso perceber que às vezes sou capaz de dizer coisas que ajudam outras pessoas, que despertam um insight ou reverberam de maneira positiva. Terminei o dia ainda cansada, mas mais feliz. Sentei pra comer, pra ver um reality na tv e, de novo, para terminar o texto. Percebi que nunca escrevi numa página de diário, acho que não via muita lógica em escrever pra ninguém ler. Mas, quem sabe, não é esse um começo?

A cada ano, calendários, diários e agendas tem as suas páginas preenchidas ao longo dos meses, com registros e documentações dos dias. Os diários, mais especificamente, são retratos não só dos fatos banais ocorridos ao longo das horas acordadas, ou dos sonhos da noite anterior – e dos ocasionais eventos excepcionais –, mas também fiéis depositários de profundas confissões, afetos e angústias, das impressões e dos desejos íntimos de alguém. Cada entrada configura um relato híbrido entre fato e percepção, veracidade e ficção, revelando de maneira premente (e não-mediada) o ponto de vista do autor. Sua natureza intimista, confessional, e até sigilosa, é também talvez um pouco narcisista, estruturando-se em primeira pessoa; sua linguagem principal é a escrita; e sua fruição é, quase sempre, destinada apenas a quem o escreve – uma narrativa sem filtro e sem necessidade de edição, aproximada da carne da vivência individual. É, ao mesmo tempo, a materialização de muitas vozes internas que, em público, silenciamos em favor da boa convivência, da civilidade e da educação, mas que podem ser livremente derramadas no papel sem medo das contradições, incoerências e, quiçá, ilusões inerentes à perspectiva singular. Assim, ler um diário alheio pode ser o mais próximo que podemos ter de ver o mundo pelos olhos de outra pessoa.

No ano bissexto de 2016, Bruno Novaes se propôs a construir um diário à sua maneira, registrando todos os dias a data corrente por meio de desenhos, aquarelas, fotografias, colagens, costuras ou intervenções que experimentassem com o formato e o papel. Fugindo da convencional escrita confessional, realizou um exercício poético-simbólico de anotação diurnal por meio da imagem. Esse exercício estava ancorado no desejo de explorar noções e interpretação do diário como ferramenta do conhecimento de si (e, mais tarde, do outro), para além das entradas narrativas. Ao concluir esse processo, o artista digitalizou e transformou todas as páginas produzidas em cartões postais, imprimindo-os para formar uma coleção de 366 fichas diferentes. 

Essa operação configurou-se como uma primeira subversão: Novaes converteu seu diário pessoal em algo cuja função primordial é circular abertamente entre pessoas, alterando definitivamente o modelo do diário comum. Mesmo que o postal se preste à escrita, não estamos mais lidando com uma esfera confidencial, e sim com algo que se presta à comunicação pública. Levando precisamente em conta essa condição dialógica do material, o artista, então, passou os quatro anos seguintes (entre 2017 e 2020) realizando um extenso processo de trocas e construção coletiva que perverteu ainda mais o intimismo e o sigilo em favor de uma dimensão compartilhada. Pela internet, anunciava regularmente uma oferta de escambo: quem quisesse participar do projeto, escolhia uma data que lhe fosse cara. Se disponível, o interlocutor receberia pelo correio o postal referente àquela data, sem saber o conteúdo da imagem – e sob a condição de que uma vez que recebesse o cartão, enviaria de volta uma resposta relativa à escolha daquele dia. 

Os participantes, movidos por associações afetivas, por feriados e datas comemorativas, por eventos políticos relevantes ou predileções aleatórias, passaram a compor uma rede pública de transações íntimas, uma cadeia ampla e espontânea de confidências entre conhecidos e desconhecidos. As respostas chegaram nos mais variados formatos: centenas de textos, cartas, bilhetes, fotografias, desenhos, objetos e peças foram sendo devolvidos ao longos dos anos até o final de 2020 (também bissexto), quando as trocas se encerraram.

Com todo este acervo acumulado, a última etapa do projeto consistiu na edição desta publicação, que não apenas conta uma versão da história dos 366 dias que formaram o ano de 2016, mas também retrata, de alguma forma, incontáveis dias, meses e anos por meio de todas e todos que se dispuseram a participar desse intercâmbio. Juntos, cada um dos destinatários desses postais tornaram-se guardiões coletivos do diário de Bruno Novaes. Depois de espalharem-se pelas mãos de muitas pessoas e por muitos lugares, as páginas do “Diário 366” agora se reencontram e se reúnem aqui, em um formato que as aproxima de sua forma original. Mas, mais do que isso, dispostas lado a lado com os retornos (e extravios, silêncios e ausências), constituem uma versão dupla e ampliada do diário, reencarnado neste livro.