Inicio perguntando sobre a origem de suas práticas artísticas. Parte da relevância dos trabalhos que realiza reside nos problemas que coloca diante de uma realidade social e política cada vez mais tensa a respeito das questões de sexualidade e gênero no ambiente escolar e na compreensão do papel da escola e da educação. Como você localiza sua produção nesse contexto?

 

Bem, percebo alguns pontos de origem na minha prática. A começar pela palavra que sempre foi importante para mim e para a qual há uma relação anterior mesmo da minha produção em artes visuais. Como cantor, a palavra já era meu interesse. Minha monografia na pós graduação, inclusive, foi a respeito da palavra na canção popular brasileira. Acho importante dizer isso, porque acredito que seja desse lugar que parto muitas vezes. Em quase todos os trabalhos a palavra chega antes da imagem para mim no processo criativo. Seja como som, como elemento gráfico, como título. Me graduei em Design, e apesar de nunca ter trabalho como designer, noto também que existe o olhar naquilo que faço de quem se inclinou para o assunto. Fiz minha licenciatura em Arte e fui parar na escola. No ambiente escolar fiquei por uma década. Estar ali era, de alguma forma, voltar à minha brincadeira favorita de infância: a escolinha no fundo da casa da rua Maceió, ambiente equipado com lousa e carteiras de verdade, já que meu avô era marceneiro. Acredito que este seja outro lugar de origem pra mim. Com o passar do tempo, depois de assumir minha produção visual, é que consigo ver que esses pontos se confundem e se cruzam. São como matrizes adormecidas, que de vez em quando pulsam e trocam de lugares.

 

Sobre o contexto da educação, nos últimos anos, o fazer artístico se deu também junto aos alunos, de forma relacional, misturando ateliê e sala de aula, caminhando para uma noção de educação mais ampla. Isso é equivalente também na exposição, quando o público participa. É educativo mesmo fora dos muros da escola. Me interessa esse lugar entre arte e arte/educação. Produzir dentro e fora de sala de aula enquanto o cenário brasileiro foi se tensionando, naturalmente também me afetou. Sala de aula, vida e trabalho, se misturam. E por esse corpo também passam as questões de sexualidade que você comenta. Há uma relação entre o que vi ali depois que voltei para aquele ambiente, já adulto, e o que passei naquele lugar quando criança e adolescente: piadas, opressão, o crescer ali dentro. Isso não foi e nem é só meu, mas estar ali como professor e viver aquilo de novo, faz com que meu trabalho toque nessas questões. Gosto desse lugar de quem observa a vida ao redor, silenciosamente. Coisas que poderiam ser privadas e íntimas, se confundem e tomam espaço público, termos, documentos,

protocolos da escola ganham outros significados.

Peço que você relate, na medida do possível e de seu interesse, a questão de seu desligamento de uma escola particular que resultou nos documentos expostos na mostra. Por que decidiu transformar esse informe – seu desligamento - em obra?

 

Pela troca e relação que eu tinha com aqueles alunos, nessa escola, durante seis anos intensos, produzindo junto com eles muitos dos meus trabalhos. Essa​ mistura de vida pessoal e trabalho, essa mistura que está presente na minha produção, de certa forma é também responsável pela ruptura. Mas o que me assustou foi a maneira conturbada e preconceituosa desse desligamento, além de silenciosa e velada. Acho que o silêncio é o que mais incomodou. Depois de um tempo para digerir é que as ideias chegaram. Entender o que aconteceu, porquê e para quê, algo que ocorre também com outros professores, e poder dar voz a essas vozes.

 

Como professor que também é artista, ou artista que também é professor, você verifica diferenças em termos de recepção dos públicos? É necessário estar na condição de aluno para uma compreensão mais sensível de seu trabalho? Você percebe diferenças nessa recepção?

 

Como quase todo o público é ou já foi aluno, o resgate é realizado pela memória e cada geração acaba tendo a sua percepção de acordo com o tipo de escola que viveu. Há também quem se coloca no lugar do professor, ou professores que se percebem novamente professores ali.

 

A escola que você evoca nas instalações, desenhos, objetos parece não existir mais, principalmente porque as recobre de um olhar sensível e amoroso. Você poderia falar das origens de seu trabalho e se existe de fato essa perspectiva? Claro que alguns trabalhos são comentários muito ácidos sobre a questão do bullying e dos preconceitos presentes no ambiente escolar, mas verifico uma ambiguidade nesse tópico.

Totalmente. Essa ambiguidade me interessa. Não acho que somente gritando é possível de ser ouvido, gosto das sutilezas, do sussurro. Me interessa essa amorosidade para falar de questões ácidas e difíceis. Talvez esse olhar sensível esteja associado ao fazer naquele espaço, de estar verdadeiramente presente nele e das relações que construí ali. Há alguns anos, esse lugar não existe mais para mim. Hoje essas escolas acabam sendo semente que ajudam a recuperar a memória do primeiro espaço escolar, a escolinha nos fundos da casa. E memórias podem se confundir, idealizadas ou romantizadas. Pode ser que eu esteja de novo brincando de escolinha. Ou que nunca deixei de brincar.

Entrevista com Bruno Novaes por Mirtes Marins de Oliveira

para a exposição O professor deverá ser o último a se retirar, mesmo nos dias de chuva

pela Temporada de Projetos - Paço das Artes - 2019

Sabemos que a escola pode ser um espaço de fomento à criatividade, às descobertas, à experimentação e à expansão dos saberes, mas é igualmente verdade que ela também pode ser um lugar de controle, de endurecimento e de repressão. Essas forças antagônicas que operam no ambiente escolar não se manifestam apenas na vivência dos alunos – hoje elas são presentes, com idêntica intensidade, na atuação dos professores, na vigilância implacável de cada palavra, cada ação e cada aula.

 

No nosso tempo, o livre pensar se vê crescentemente circunscrito: escolas sem partido estão repletas de religião; discussões e materiais didáticos sobre diversidade sexual são desonestamente chamados de doutrinação; e disciplinas que poderiam ampliar os horizontes, promover o questionamento, e alimentar a criatividade e singularidade são o mais recente alvo do desmonte sistemático do ensino. Em meio a esse contexto trágico, não há postura mais radical do que enfrentar esse sistema de forma independente – seja como professor, seja como artista. 

 

Nesta exposição encontramos trabalhos que se ancoram numa linha tênue e borrada entre essas duas formas de agir no mundo. Bruno Novaes atuou como professor de arte por vários anos em escolas particulares, lidando com alunos do Ensino Fundamental e Médio. Em paralelo, vem desenvolvendo uma pesquisa artística própria, uma produção pautada no desenho, aquarela, escrita, e em suportes tridimensionais como objetos e instalações. No entanto, essas duas ocupações sempre se confundiram e se contaminaram: seus trabalhos são construídos a partir de vivências pessoais, tanto quanto de apropriações das experiências em sala de aula – inclusive realizando trabalhos em colaboração com seus alunos.

 

Contudo, houve um momento em que essas duas vidas não puderam mais coexistir, em um choque irreconciliável entre a esfera privada e a figura pública do docente. Esta exposição é, assim, como um segundo capítulo na grande narrativa da pesquisa do artista: a primeira parte apresentada sob o viés das relações pessoais, “Capítulo 1: O corpo mente menos que as palavras”, explorava desenhos e aquarelas sobre encontros românticos e experiências sociais; agora, sob a perspectiva da colisão dessa dimensão com a persona do professor, Novaes traz trabalhos inéditos que refletem sobre o papel da escola, do aluno, do mestre e da arte na rede de produção de significados em que todos nós estamos inseridos. Por meio de brincadeiras, simulacros, provocações e resgates históricos, o artista nos convida a pensar sobre todas as regras invisíveis ou disfarçadas que formatam o ensino no Brasil, revelando as rachaduras, abismos e falências que permeiam todo o sistema. Diante desse cenário, deve mesmo o professor ser o último a se retirar?

Julia Lima

Para a exposição Capítulo2: O professor deverá ser o último a se retirar,

mesmo nos dias de chuva

na Casa do Olhar Luiz Sacilotto/SP - 2018

Talvez longe, em Júpiter, eu consiga escrever sobre você. Agora só é possível falar para você, com você, que se expõe inteiro em um diário, derrama todos os fluidos íntimos ali nas páginas amareladas e rabisca sem pudor o retrato de cada encontro, de cada toque, de cada membro. Eu, tão aberta, tão falante, não consigo me oferecer assim e você, tão tímido e contido, revela-se no papel mais do que eu jamais pude contar. Eu não sei contar vantagens, a transparência sempre foi a fragilidade daqueles que se apegam ao tamanho real das coisas e não há poesia alguma nisso. Outro dia aprendi que a criatividade é energia masculina, e não feminina – o feminino não cria, e sim gesta, incuba, nutre e fomenta. Você faz da sua vida sua matéria, do seu corpo seu instrumento, seu corpo a carne que alimenta toda criação. Falsa é a carne, você diz, entre tantos outros versos que às vezes me faziam corar, e outras várias balançar a cabeça pensando ele entendeu tudo, tudo. E se a carne é falsa, mas o corpo mente menos que as palavras, como sabemos o que é o real? No princípio era o verbo! E a verdade é que a linguagem importa, as palavras querem dizer algo, mas dissimuladamente carregam significados que não são os que queremos imprimir, não explicitamente. A precisão da linguagem é um jogo perigoso e os nomes das coisas podem nos enganar, nossos vícios e inflexões criando zonas movediças de ambiguidade e ruído. As palavras não são suficientes para ti, que insiste em retratar coisas íntimas como efígie, que caminha na fina linha entre imagem e discurso, entre objeto e signo, criando uma terceira margem semiótica onde só a sua vivência é capaz de completar os sentidos. Como você chama mesmo? O seu nome se confunde com os nomes anônimos que você, durante um ano inteiro, sucessivamente descobria nos aplicativos afetivos com um apetite de presença e desfastio que imediatamente se materializava em companhia; em seguida, voltava ao buraco vazio apenas para, num novo dia, se preencher com um diferente alguém. Esses encontros se tornaram ilustrações e versos, que por sua vez se tornaram livro, que por sua vez se tornou aquarela e desenho, transbordando até onde se vê aqui. De um lado, palavras não correspondem às figuras, são estranhamente separadas em sílabas coloridas – os impasses da linguagem nos atravessam, mas há algo mais desconcertante ali na distância entre a língua e a bola. O apelo infantil do controle de videogame, do compasso e da mochila inusitadamente se choca à sensualidade dos vocábulos que balbuciamos pausadamente entre uma cor e outra. É como se estivéssemos aprendendo a ler de novo ou decifrando pequenos enigmas que não tem resposta certa. Do outro lado, delicadas aquarelas convivem com escritos quase imperceptíveis, informações objetivas de geo-localização que nos revelam as coordenadas de latitude e longitude para cada objeto. Querido, o mundo é exato, mas o ser humano não, é impossível organizar de forma cartesiana a experiência que você diligentemente documentou por um ano inteiro nas páginas do seu diário (que agora pode ser comprado por qualquer um, que coragem). O artista procura no que faz algo de si, precisa reconhecer-se. Escrevendo agora, seus trabalhos me fizeram lembrar de como o mito de Narciso é uma imagem fundadora para a psicanálise, mas também para a arte – o belo jovem está amaldiçoado a ver-se e não enxergar nada mais, e a ninfa apaixonada por ele está fadada a apenas repetir as últimas palavras que escuta. O fascínio com a imagem e a obsessão com a palavra são apresentados lado a lado, a imagem de si que parece do outro, a voz do outro que volta como minha própria. Conhecer a si mesmo e ao outro é de uma potência tremenda, e eu já esqueci do tempo que não te conhecia. Te falo agora em primeira pessoa porque, por sorte, não sofremos de transtornos narcísicos, conseguimos buscar o que há de mim em você e o que há de você em mim – desde que não nos afoguemos nos nossos reflexos e que aprendamos a escutar mais profundamente do que apenas repetir o que nos é dito. Na tragédia clássica, Narciso se torna flor, Eco se torna pedra, objetos como os que você tão afetivamente representa. Queria saber qual seria o objeto que simbolizaria meu retrato, talvez você me conte numa resposta a essa carta ou com um novo trabalho, meia vida depois. Eu, como você, queria ter um amigo, mas encontrei um artista.

Julia Lima

Para a exposição Capítulo1: O corpo mente menos que as palavras

na Oma Galeria/SP - 2018

Ardiloso com o jogo de palavras o jovem artista Bruno Novaes, que também é educador, traz à tona uma questão que faz parte do seu cotidiano e dessa forma transforma o trabalho em uma referência quase autobiográfica.

Os desenhos reproduzidos em “lambe-lambe” apresentam algumas das possibilidades de desenvolvimento de um corpo humano, e em uma primeira camada direcionam para uma discussão sobre gênero. 

Ao criar as Apostilas para distribuição gratuita, e que fazem parte da obra, o artista caminha para uma outra camada do trabalho, na direção da educação para uma nova perspectiva sobre o corpo, gênero e identidade. Acerca do artificioso jogo de palavras, adotamos um significado encontrado na internet para o substantivo feminino, Ciência, que seria “...o conhecimento atento e aprofundado de algo, adquirido via observação, identificação, pesquisa e explicação de determinados fenômenos e fatos…”, significado esse que cabe perfeitamente ao propósito do artista com esta obra e em outros trabalhos recentes. Ainda sobre o complemento desse título Ensino Fundamental, ele se encarrega da urgência do tema.

 

Thomaz Pacheco

Para o site specific Apostila de Ciências: Ensino Fundamental

na UFABC/SP - 2017

Bruno Novaes aprisiona dentro de dez garrafas, desenhos feitos sobre passagens de trem, fotocópias de anotações, fragmentos de um caderno de artista e por fim um cadeado. Um trabalho de colecionador que, ao guardar estes “restos” produz uma espécie de contra-monumento. Colocado aqui no sentido de que esta obra se opõe à monumentalidade, a maior garrafa mede 31 centímetros. Um contra-monumento também por não se impor fisicamente ao solo e tampouco datar-se como uma coisa terminada. As garrafas são soltas, permitem ao artista a liberdade de criar novos arranjos para cada lugar em que ela for montada.

 

A instalação funciona como um princípio de montagem, onde ao aprisionar os desenhos em garrafas transparentes se permite que aquelas memórias (passado) sejam vistas e ressignificadas (presente) por quem as contempla. Passagens, trabalho acabado ou inacabado, garrafa aberta ou fechada, sugere uma nova forma de ler e interpretar um passado, um amontoado de memórias, tomando por material seus cacos. Bruno faz um trabalho de colecionador das suas próprias lembranças, em que trechos da história foram interrompidos e condensados na superfície de papéis. Aqui, genuinamente, a história é escrita a partir das imagens que, via de regra, pertenceram a um dado momento da vida do artista e agora se coloca como narrativa perdida. Não há começo nem fim. Passagens sugere este caminhar desregrado por entre garrafas de memória.

 

São desenhos como relatos de um flâneur que percorreu a Paris contemporânea em contraste com a que Benjamin descreve. E depois guardou estes olhares em garrafas, tapando-as com rolhas, talvez na tentativa de conservá-los. Passagens também pretende que as imagens sejam a sua própria dimensão temporal: estão situadas dentro de um corpus espaço-tempo, e já não se manifestam em seu estado bruto, mas como cacos de uma história. Os desenhos se encontram rasgados, algumas passagens de trem estão sobrepostas, e a obra se apresenta como este emaranhado de papéis que o artista produziu em diferentes épocas. Um colecionador. E estando nesta condição, Bruno aprisiona esta coleção e a torna pública, mas que permanece em segredo. Sua obra consiste em expor um segredo tornado público, e colocado em estado de conserva. Resta ao observador criar sua própria narrativa a partir dos fragmentos que podem ser vistos. Em voz baixa: o trabalho de escolher em quais garrafas os desenhos iriam ficar se assemelha ao pingar da chuva dentro das garrafas no filme de Tarkovsky. Com a diferença que a água evapora e deixa apenas uma quase-marca na superfície, e na instalação de Bruno Novaes eles permanecem como se na verdade ali houvessem vidros de loção prontos a evaporarem quando alguém, por um descuido, retirasse a rolha.

Segredos aprisionados em garrafas de ar

Juan Casemiro

a partir da exposição de Passagens

no Memorial da América Latina/SP - 2015